A distribuição dos lucros aos trabalhadores vai reduzir a capacidade de investimento das empresas. É esta a conclusão de um estudo elaborado pela FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). A participação dos empregados nos resultados das empresas foi tornada obrigatória pela Medida Provisória 794, de 29 de dezembro. Foi um dos últimos atos do governo do ex-presidente Itamar Franco. Segundo a FIESP, as empresas vão investir menos porque o lucro, que é a principal fonte de recursos para investimentos, terá uma parcela dirigida semestralmente aos trabalhadores. A FIESP entende que, de acordo com estudo de seu Departamento de Economia, a MP 794 também vai reduzir a poupança total da economia, diminuindo a capacidade de investimento do país. "A medida transfere recursos da empresa, que é uma poupança integral, para outro agente econômico, que poupará apenas uma parcela dessa renda transferida", afirma o documento elaborado pela entidade. A FIESP prevê também uma redução no poder dos sindicatos. A razão é a diferença entre os lucros das várias empresas, o que resultará em negociações individuais entre empresas e trabalhadores, excluindo os sindicatos. A FIESP vê, porém, alguns pontos positivos na participação dos trabalhadores nos resultados das empresas. "Deve ocorrer aumento de produtividade nas empresas, em função do maior interesse dos trabalhadores", diz o estudo. Outro fator positivo, citado no documento, é o fato de que as empresas serão mais controladas, devido ao interesse dos próprios trabalhadores em fiscalizá-las. A MP proibe a substituição do salário por distribuição de lucros. Apesar disso, a FIESP acredita que sua implantação pode ser um passo no sentido da futura flexibilização do mercado de trabalho. Isso porque a remuneração do empregado passará a ser composta de uma parte fixa, que é o salário, e outra variável, que é a participação nos lucros. "Com o decorrer do tempo, dada a inexistência de encargos trabalhistas, a parte variável pode ganhar importância em detrimento da parte fixa, caminhando assim para uma saudável flexibilização da remuneração", diz o estudo. O presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, disse que, apesar de obrigatória, dificilmente todas as empresas obedecerão a MP ainda este ano. Ele espera discussões difíceis mas que, de qualquer maneira, democratizarão as empresas e aumentarão o poder de decisão dos empregados. "O fato de a participação nos lucros ter sido aprovada por uma Medida Provisória e não pelo Congresso foi uma atitude anti-democrática porque, do mesmo jeito que ela foi criada, ela pode ser desfeita. Mesmo assim, é extremamente modernizante e vai aumentar a qualidade, a produtividade e a capacidade de negociação dos trabalhadores", afirmou (FSP) (O Globo).