Sob impacto da desvalorização do peso mexicano e seus reflexos negativos na Argentina-- que vive a sua pior crise desde a implantação do Plano Cavallo-- o Mercado Comum do Cone Sul (MERCOSUL) deixa hoje o papel para se tornar uma realidade. A zona de livre comércio criada pelo tratado, que responde por um PIB global de US$733 bilhões-- renda per capita média de US$4.117--, corresponde a 12 milhões de quilômetros quadrados, e abriga 190 milhões de habitantes, quase a metade da população latino-americana. Com o MERCOSUL, começa a vigorar, para o comércio inter-regional-- que movimenta mais de US$10 bilhões-- a alíquota zero aplicada a 98% dos produtos fabricados no Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, e a Tarifa Externa Comum (TEC), com nove mil itens, que regula o comércio com os países fora da esfera do MERCOSUL, e cujos percentuais vão variar de zero a 20%. O MERCOSUL possibilitará a internacionalização-- ou binacionalização-- das empresas, obrigando-as a pensar globalmente em tremos de produção, mercado, qualidade e produtividade, avalia Luiz Olavo Batista, professor de comércio internacional da USP. Ele prevê o acirramento da competitividade e o movimento de formação de joint-ventures e conglomerados empresariais de parceria entre os quatro países. O mercado argentino representa o grande filé para as empresas brasileiras no MERCOSUL. Para se ter uma idéia 330 empresas nacionais já têm escritórios, negócios ou fábricas na Argentina. De 1991 para 1993, as exportações brasileiras para o MERCOSUL pularam de US$2,3 bilhões para US$5,3 bilhões. As importações brasileiras do MERCOSUL atingiram US$3,3 bilhões em 1993, o que significa crescimento de US$1,1 bilhão diante de 1992. O presidente da Confederação Nacional de Trabalhadores da Alimentação, Siderlei Oliveira, informou que está mantendo contatos com entidades empresariais e órgãos do governo, visando a realização de cursos profissionalizantes para os produtores e trabalhadores de setores atingidos pelo MERCOSUL. Ele teme que a união cause desemprego ou obrigue os trabalhadores a mudarem de profissão. "Ninguém do governo até agora pensou na crise que será desencadeada com o MERCOSUL na área do trabalho. Os acordos do MERCOSUL são apenas comerciais", reclamou Siderlei, cuja entidade é filiada à CUT que, junto com a Central de Trabalhadores da Argentina, pressionou as autoridades dos dois países para evitar a extinção do Grupo 11, sobre Direitos Sociais, como pretendiam os governos (O Globo) (JB).