MORTALIDADE INFANTIL NO BRASIL É MAIOR QUE A DE PAÍSES POBRES

Documento divulgado ontem pelo UNICEF mostra que o Brasil tem um índice de mortalidade infantil bem acima de países pobres da África, Ásia e América Latina. A mortalidade infantil é o principal indicador social de um país. Apesar de graves, os números do UNICEF devem estar subestimados, por serem baseados em estimativas de 1993. Há indícios de que a situação esteja pior. O documento "Situação Mundial da Infância", do UNICEF, situa o Brasil como 83o. entre os países de menor taxa de mortalidade. O pior país é Níger (centro-oeste da África). De cada mil crianças, 320 morrem antes de completarem cinco anos. O melhor colocado é a Finlândia (norte da Europa). Lá, de cada mil crianças, cinco morrem antes de completar cinco anos. No Brasil, de cada mil nascidas, 63 morrem antes de completar cinco anos. A crise social brasileira é visível comparando a renda per capita dos países e seu nível de mortalidade infantil. Melhor desempenho da América Latina, Cuba está em 26o. lugar, com uma renda per capita de US$1.170. A renda do Brasil é mais que o dobro (US$2.770). Com uma renda per capita de US$1.380, o Paraguai está em melhor situação que o Brasil: lá, de cada mil crianças, 34 morrem antes de completar cinco ano. Os indicadores básicos do relatório mostram que ainda há muito o que fazer no Brasil. No país, 11% dos bebês nascem com peso abaixo de 2,5 quilos. A taxa de mortalidade materna entre 1980-1992, por exemplo, foi de 200, 67 vezes mais alta que a da Noruega. A expectativa de vida no Brasil, de 66 anos, não é tão baixa como a da Nigéria, 47 anos, mas é a mesma do Turcomenistão e do Iraque, e está longe dos campeões como a Suécia, 78 anos. Poucos países estão cumprindo a promessa de elevar em 90% o nível de vacinação de crianças até o próximo século, elevando o risco de pneumonia, a terceira maior causa de morte de crianças no mundo. O Brasil é uma boa exceção: com 75% das crianças com menos de um ano vacinadas contra difteria, pólio e tétano, o país está avançando na meta. Se outros países não tomarem uma atitude, diz o UNICEF, 30 milhões de crianças de menos de cinco anos vão morrer até o final da década. Brasil, Argentina, Venezuela e Colômbia estão entre os que estão reduzindo a mortalidade infantil provocada pela desnutrição, segundo o UNICEF, embora no Brasil a taxa continue alta: oficialmente, 10% das crianças de menos de cinco anos são mal nutridas. O relatório do UNICEF prevê também que pelo menos 30 mil crianças menores de cinco anos morrerão no Nordeste brasileiro, nos três primeiros meses de 1995, por falta de condições de saúde e de assistência médica. Diarréias e infecções respiratórias estarão entre as principais causas da mortalidade infantil na região. Seria muita sem-vergonhice dos governantes eleitos não melhorarem as
84241 condições de saúde, porque eles já sabem qual é a situação, afirmou o representante do UNICEF no Brasil, Agop Kayayan. Em carta assinada por ele, pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, pelo ministro da Saúde, Henrique Santillo, e pelo presidente da CNBB, dom Luciano Mendes de Almeida, o UNICEF alertou prefeitos e governadores das regiões mais críticas, pedindo providências para evitar as mortes das crianças. Na carta, o UNICEF recomenda às autoridades que façam estoque de soro de reidratação oral e antibióticos para combater a diarréia e as doenças respiratórias, que aumentam com a chegada das chuvas no início do ano. Nem nos municípios mais pobres da região faltam gente e dinheiro para
84241 evitar essas mortes. Falta é vontade política, criticou Kayayan (FSP) (O Globo) (JB).