Como já não conseguem alimentar os filhos com o que ganham, as mulheres que enfrentam o trabalho pesado no plantio e corte da cana em Pernambuco estão se submetendo a uma violência ainda maior. Quando estão de folga, aceitam fazer programas com pequenos comerciantes, caminhoneiros e administradores de engenhos. A prática da prostituição como complemento da renda familiar chega a ser tolerada pelos próprios maridos. Para não serem rotuladas de prostitutas nos municípios onde vivem, as canavieiras vão para as cidades vizinhas. Como a prostituição não é feita de forma profissional, elas nem costumam acertar preço. Aceitam o que os homens se dispõem a dar. Há mulheres que se prostituem até por R$1 para comprar feijão. Para se prostituir, muitas destas mulheres não precisam nem sair do canavial: mantêm relações sexuais com os fiscais dos engenhos em troca do registro de tarefas que não conseguiram cumprir. Na última entressafra, o Centro de Estudos e Pesquisas Sociais Josué de Castro fez um levantamento em oito municípios da zona canavieira que serve como indicativo da gravidade do problema. Entre as 300 famílias entrevistadas, 3% assumiram a prática da prostituição para sobreviver na entressafra. A dirigente do Centro de Mulheres de Joaquim Nabuco, Benedita Ferreira da Silva, afirma que muitas canavieiras, depois de abandonadas pelos maridos, submetem-se à figura do "asilado", um homem com o qual mantêm relações sexuais com regularidade em troca de dinheiro. A prostituição entre as mulheres canavieiras cresce na mesma proporção do desemprego, nos 40 municípios da Zona da Mata de Pernambuco. Com o processo de mecanização, o contingente de trabalhadores rurais empregados na região canavieira foi reduzido quase à metade na última década. Segundo estimativa da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (FETAPE), 50% dos poucos mais de 140 mil canavieiros empregados hoje trabalham de forma clandestina. As mulheres, que representam 15% desse contingente, são as primeiras vítimas desse regime de exploração. Com a diminuição de mais de 200 mil postos de trabalho ao longo dos anos, os engenhos e usinas passaram a priorizar a contratação de homens. Hoje, as poucas mulheres com carteira assinada encontradas nos engenhos possuem, no mínimo, 10 anos de trabalho. Resta à maioria se submeter ao trabalho clandestino no período de safra. Sem qualquer direito trabalhista e contratadas por intermediários, recebem salários ainda menores. A maioria das mulheres está ganhando no atual período de safra entre R$8 e R$15 por semana (O Globo).