O julgamento do ex-presidente Fernando Collor de Mello, de Paulo César Farias (o PC) e mais sete réus começou ontem no Supremo Tribunal Federal (STF), em sessão que durou 13 horas, prossegue amanhã (hoje é feriado forense) e não tem prazo para acabar. O procurador-geral da República, Aristides Junqueira, refutou os argumentos de que sua denúncia não conseguiu caracterizar o crime de corrupção passiva de que os réus são acusados. "Está claro na denúncia que o ex-presidente se beneficiou diretamente da união com seu tesoureiro, não com as alegadas sobras de campanha, mas com dinheiro extraído de empresas, em montante assustador que chegou a US$4.724.593,99", disse ele. Junqueira também acusou o ex- presidente de jamais ter tocado em seu salário durante os dois anos e meio que ocupou a Presidência. Os vencimentos eram depositados numa caderneta de poupança e, segundo revelou o procurador-geral, só no segundo semestre de 1992, quando o inquérito policial sobre o esquema PC já estava em andamento e a "fonte secou", Collor começou a fazer retiradas. Os advogados de defesa-- Evaristo de Moraes Filho, de Collor, e Nabor Bulhões, de PC-- sustentaram que o dinheiro repassado ao ex-presidente e seus parentes vinha das sobras de campanha de 1989. Para Evaristo, embora eticamente questionável, o uso das sobras de campanha para satisfazer necessidades pessoais não constitui crime. Aristides Junqueira reconheceu, porém, não ter conseguido provas contra Cláudio Vieira, ex-secretário particular de Collor, no crime de corrupção passiva-- denúncia que ele próprio apresentou ao STF em 1992. Com o reconhecimento, Aristides tentava mostrar a correção de seu trabalho, criticado nos últimos dias. Ministros do STF afirmaram, reservadamente, que a denúncia de Aristides contra os acusados era fraca. Não interessa ao Ministério Público uma condenação sem provas, disse Aristides. Em seguida afirmou que, "sem dúvida", há provas contra Collor e PC por corrupção passiva. A sociedade civil não está nas ruas, mas permanece em vigília torcendo para que o ex-presidente seja condenado por crime comum, disse ontem o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Barbosa Lima Sobrinho. "Mudaram as circunstâncias, mas não mudaram os sentimentos da opinião pública", afirmou, categórico, o homem escolhido em 1992 para encabeçar o pedido de Impeachment" (JB) (O Globo) (FSP).