Pois bem, então você quer mesmo entrar na Internet? Existem muitas formas de se conseguir um endereço na rede das redes. Algumas ainda são improváveis no Brasil, como ser admitido em uma empresa que tenha um servidor ligado à rede (Microsoft e IBM, por exemplo). Outras demandam rios de dinheiro, a exemplo do sujeito que acessa um provedor de serviços nos EUA pagando a ligação internacional. Na prática, hoje há três formas de conseguir uma conta, cada uma com suas vantagens e desvantagens e preços que variam de zero a algumas dezenas (centenas, até) de reais por mês. Com uma variação dessas, a primeira alternativa que deve ser estudada é a via gratuita. Se você é funcionário, pesquisador, professor ou estudante de uma universidade pública, as chances estão ao seu lado. Entretanto, não há motivo para desespero entre os universitários das escolas privadas. A PUC-RJ, por exemplo, está muito bem provida. Outras pessoas que podem se beneficiar são os funcionários de alguns órgãos do governo, embora essa alternativa não seja tão disseminada. Antes de mais nada, é preciso sondar se há disponibilidade e que departamento, instituto, núcleo de computação ou coisa que o valha detém o poder sobre a concessão de contas. Também não atrapalha nada conhecer alguém de lá ou saber pelo menos o nome da pessoa com a qual se deve falar. Procure também conhecer o maior número possível de pessoas que já estão usando os serviços e recolha o máximo de informações. No Rio de Janeiro, uma segunda opção muito boa é a operada pelo IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas): o AlterNex. Ele é um serviço internacional de intercâmbio eletrônio de informações sem finalidade lucrativa. Além disso, também é uma forma, simples, desburocratizada e rápida de obter acesso. O custo varia de acordo com o uso. Na primeira conta vem uma taxa de inscrição de R$16. A partir daí paga-se um mínimo de US$10 por mês, use-se ou não o sistema. A cobrança por hora de conexão é feita com base numa tabela escalonada, onde o custo/hora diminui com o aumento do tempo de acesso. Também há tarifas diferenciadas por horário, sincronizadas às da EMBRATEL. Há um pequeno custo adicional, cobrado na base do quilocaractere, para envio de mensagens a outros sistemas que não o do IBASE. Uma forma ainda limitada, mas que promete se alargar nos próximos meses, é o acesso por meio de BBS. Normalmente, dos serviços disponíveis na Internet, você pega apenas os que podem ser acessados por e-mail, como o próprio, listas de conferências e, algumas vezes, ftp. Diversos boards no Brasil estão oferecendo contas Internet para os usuários. Inside, no Rio, e o Mandic, em São Paulo, são dois deles. Em breve, quando finalmente ficar pronto nosso (da EMBRATEL) link de 2Mbps, começaremos a assistir ao verdadeiro boom da Net no Brasil. Já há várias empresas de olho em projetos de comercialização da Internet e não haverá carência de provedores de serviços. A IBM, por exemplo, já está, mesmo que de forma velada, comercializando a Net no esquema de acesso que criou para os usuários de OS/2 Warp. Outras seguirão seus passos em ritmo acelerado. Hoje já ultrapassamos os 25 milhões de usuários no mundo inteiro. A cada 30 minutos uma nova máquina é registrada na Internet. O tráfego do World Wide Web (WWW) através do backbone da NSFnet aumento de 5.000Mb em março de 93 para 750.000Mb em março de 94. O crescimento do tráfego é descomunal e ninguém conseguiu provar que os investimentos em infra- estrutura acompanharão esse ritmo. Aponta-se uma possibilidade de saturação para breve, dificultando formas de acesso mais sofisticadas, com imagens e sons. Mas a rede não rejeita ninguém. É da sua natureza. Se nos EUA o governo foi o grande mecenas da Internet, aqui, infelizmente, não se pode dizer o mesmo. Excluindo o Ministério da Ciência e Tecnologia, através do CNPq e outros órgãos de amparo à pesquisa geridos pelos governos estaduais, como a Faperj e a Fapesp, a atuação do governo brasileiro no desenvolvimento da RNP (Rede Nacional de Pesquisa, ou a Internet brasileira") e na sua interligação com o mundo, foi sempre-- e no máximo-- ocasional. A política de comunicação de dados transfronteiras, coordenada pela EMBRATEL e pela extinta SEI (Secretaria Especial de Informática), cerceou durante anos a troca de informações entre a comunidade acadêmica e os pesquisadores brasileiros e seus pares no exterior. Nos fins dos anos 80, a Fapesp, em São Paulo, e o LNCC e a UFRJ, no Rio de Janeiro, conseguiram, depois de muita negociação, oferecer acesso à BitNet. Ficamos assim até agosto de 1990, quando o CNPq decidiu apoiar a implantação de uma rede interacadêmica: a RNP. Graças à competência dos nossos acadêmicos, ela foi baseada no padrão TCP-IP, o que facilitou, às vésperas da ECO-92, a criação de um backbone da RNP interligando as principais universidades do país, organizações não-governamentais (como o IBASE) e centros de pesquisa, aproveitando a boa vontade da EMBRATEL em fornecer acessos internacionais aos participantes da conferência da ONU. Enquanto isso, a iniativa privada, a EMBRATEL e as empresas regionais da TELEBRÁS brigavam pela prestação de serviços de comunicação de dados. A infra-estrutura de telecomunicações começava a ficar ultrapassada. E grandes usuários, como IBM, PETROBRÁS e Bamerindus, recorriam à implantação de redes privadas via satélite. O resultado é que, ainda hoje, os principais canais de comunicação entre os pontos do backbone RNP, e dele com a Internet (através da UFRJ-CERFnet e da FAPESP-ANSNet), funcionam a 64Kbps. Só agora, lutando contra a privatização, a EMBRATEL despertou para a necessidade de oferecer acessos comerciais à Internet. E foi buscar, na RNP, o conhecimento e a estrutura técnica necessários para disponibilizar esse acesso às principais cidades do país. Em setembro, um convênio de cooperação técnica entre os ministérios da Ciência e Tecnologia e Comunicações rendeu outro convênio entre CNPq e EMBRATEL, visando o aumento da velocidade dos links da RNP para 2Mbps (necessário ao estabelecimento da Internet comercial) e a redução das tarifas para usuários não-comerciais (que começariam a compartilhar a infra-estrutura da rede com os usuários comerciais) até novembro (Informáticaetc.-O Globo).