Mil novecentos e noventa e cinco será o ano da redemocratização da terra. Pelo menos é o que espera a Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida. Assim como este ano o trabalho nos comitês foi marcado pela campanha de geração de empregos, 95 será marcado pelo uso da terra para a produção de alimentos. "Não se trata de uma nova bandeira. O que nós vamos fazer é ligar a terra com a fome e o emprego", explica o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. O primeiro grande ato da nova etapa da Ação da Cidadania será a Carta da Terra, um manifesto de Betinho ao qual será anexado um abaixo-assinado a ser entregue ao presidente eleito, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), no dia da posse. Embora a questão da terra esteja intimamente ligada ao trabalho no campo, Betinho mostra que há formas de mobilização mesmo para quem mora na cidade. "O que nós temos que fazer é mostrar que a terra tem tudo a ver com a cidade. A violência, as migrações, a fome e a indigência podem ser consideradas resultados do mau uso da terra", explica. Os novos passos da Ação da Cidadania poderiam ser detectados ainda no ano passado, quando ele escreveu em um artigo: "A fome é exclusão. Da terra, da renda, do emprego, da economia, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer é porque tudo o mais já lhe foi negado. É uma espécie de cerceamento moderno ou de exílio. O exílio da Terra". Betinho faz questão de frisar que cada nova etapa é acrescentada às anteriores da campanha. Assim, os comitês que trabalhavam apenas recolhendo donativos continuam com essa atividade. A geração de empregos e democratização da terra aparece como um novo encargo de cada comitê. O Comitê Rio é o polarizador de todos os demais. Ele poderia até ser considerado o órgão central da Ação da Cidadania, recebendo todas as informações sobre as atividades dos demais comitês que estão espalhados por todo o país. "Eles são independentes e autônomos", explica Maria da Graça Gomes dos Santos, coordenadora do Comitê Rio (Zona Sul-O Globo).