RELATÓRIO DO CONSEA SOBRE DESNUTRIÇÃO

O número de crianças desnutridas de até cinco anos é o mesmo desde 1989 no Nordeste e há tendência de crescimento no Sul. Essas conclusões constam do relatório anual do CONSEA (Conselho de Segurança Alimentar)-- integrado por nove ministros e 15 representantes da sociedade civil, entre eles, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. O documento aponta a desnutrição como um dos problemas emergenciais que o presidente eleito, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), terá de resolver no início do governo. O objetivo do documento, extraído do Projeto Criança Contra a Fome e Pela Vida-- parte do Programa Embala Brasil--, é o de fazer o perfil dos desnutridos e propor parceria com os governos para solucionar o problema. A avaliação detectou uma estreita relação entre a desnutrição e a indigência (crianças cujos pais ganham menos do que um salário-mínimo). O estudo estima que, dentre 23,3 milhões de crianças brasileiras de até cinco anos, 6,3 milhões vivam em estado de indigência. O documento traz o resultado do levantamento feito com 300.377 crianças em 295 municípios de 15 estados e Distrito Federal no decorrer deste ano. O CONSEA não estabeleceu um índice nacional de desnutrição porque foram adotados métodos diferentes para a realização do levantamento. Os técnicos estabeleceram a relação de peso e idade de todas as crianças para identificar o grau de desnutrição. É considerada desnutrida a criança com peso abaixo de um patamar pré-estabelecido para sua idade. Entre os dados do relatório, a cidade de Tubarão (SC) tem o menor índice do país. Apenas 1,8% das 1.397 crianças examinadas são desnutridas. O maior índice foi registrado no município Olhos DÁgua, no sertão da Paraíba, onde 70,4% das crianças são desnutridas. Segundo o relatório, Curitiba (PR), é a que apresentou o maior índice de desnutrição-- 32,8% de um total de 16.347 crianças examinadas-- na região Sul. O índice de Curitiba está próximo aos do Nordeste e foi levantado oficialmente pelo Sisvan (Sistema de Vigilância Nutricional). O documento do CONSEA aponta crescimento de 2,5% nos desnutridos do Rio Grande do Sul. Nas regiões Norte e Centro-Oeste os índices também são altos. Em Porto Nacional (TO), foram examinadas 1.060 crianças, sendo que 42,64% delas apresentam desnutrição. No Distrito Federal, 23,5% das 17.000 crianças estão desnutridas. As cidades-satélites e assentamentos têm os casos mais graves. A OMS (Organização Mundial de Saúde) considera o índice de desnutrição como normal quando o limite representa até 2% do total pesquisado. Segundo Maria do Carmo Freitas, que coordenou o projeto, os índices mostram que, por abranger os "bolsões de miséria", a taxa de mortalidade infantil pode aumentar no início de 95, principalmente no Nordeste. Os índices de mortalidade infantil de 94 em muitas cidades do Nordeste superaram o recorde mundial do Níger (país do norte da África), que é de 171 mortos para cada mil crianças nascidas vivas. Entre as causas apontadas pelo relatório como responsáveis pelos índices, estão o baixo poder aquisitivo, a falta de condições de saúde no campo e falta de saneamento básico (FSP) (O ESP) (JC).