Com 30 anos de atraso, um grupo de apaixonados militantes da organização semiclandestina Ação Popular (AP), que na década de 60 pregou a luta armada numa utópica revolução socialista jamais concretizada, chega ao poder pelo voto direto. Entre os sonhadores da década de 60 estão vários dos principais assessores do presidente eleito, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), e até o governador eleito do Distrito Federal, Cristóvam Buarque (PT). Militaram na AP, entre outros, o secretário-geral do PSDB, Sérgio Motta, o senador eleito José Serra (PSDB-SP) e o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Clóvis Carvalho-- ambos cotados para assumir a pasta-- e a socióloga Gilda Portugal, amiga do presidente eleito e que também deve ter função de destaque no próximo governo. Um dos fundadores da organização de esquerda-- e um de seus líderes-- era o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que lidera hoje a maior e mais bem-sucedida campanha contra a fome que já se fez no país. Mais amadurecidos, todos afirmam que a utopia da transformação social de então pode transformar-se agora em realidade. Essa utopia permanece. Pode se ter perdido um pouco da paixão, mas a
83911 vontade de ajudar o povo persiste. A AP no poder significa a possibilidade
83911 concreta de transformação do país. Transformar como? Hoje temos
83911 consciência de que quem faz a revolução é o capital. Então vamos
83911 trabalhar para recuperar o papel do Estado, retomando sua função social.
83911 Temos ainda uma vontade brutal de acabar com a corrupção e acelerar o
83911 crescimento da nossa economia. A utopia que permanece é a de melhorar as
83911 condições de vida do povo, diz Sérgio Motta, um dos mais ativos membros da extinta AP. De 1962 até sua extinção em 1972, a AP fez todos os presidentes da União Nacional dos Estudantes (UNE), começando com o ex-deputado Aldo Arantes e terminando com Honestino Guimarães, assassinado durante o regime militar. A organização, depois de se aliar aos estudantes, começou a atuar junto ao movimento camponês e operário. Na luta pela reforma agrária e sindicalização rural, muitos camponeses foram mortos. A AP participou da criação de aproximadamente 30 frentes camponesas que atuavam em todo país (O Globo).