POBRES E RICOS ASSUMEM CULTURA DA VIOLÊNCIA

A movimentação das Forças Armadas nos morros cariocas está servindo de matéria-prima para especialistas em comportamento diagnosticarem que o Rio de Janeiro, ainda "vendido" no exterior como balneário exótico, está se transformando na expressão máxima da "cultura da violência". Ricos e pobres convivem diariamente com os efeitos dos demandos policiais, truculência de traficantes, abuso de poder. Como consequ"ência, passram a considerar violência um fenômeno normal, rotineiro. Adultos e crianças reagem a situações violentas com a mesma passividade. Não é raro ver crianças jogando bola perto do corpo de um traficante morto por policiais ou embalando cabos de vassoura como se fossem fuzis. Elas estão sendo violentadas o tempo todo e perderam a capacidade de
83898 reagir, de se indignar, diz a psicóloga Cecília Coimbra, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e presidente do grupo Tortura Nunca Mais. Esse quadro é uma marca registrada das grandes metrópoles, "mas no Rio aparece mais nítido por causa da violência explícita, armada, presente no asfalto e nos morros", nota a psicóloga. "A situação é de desrespeito total pela vida do outro". Para ela, a pena de morte já existe extra- oficialmente no Rio e as principais vítimas são negros, pobres que estão no fogo cruzado entre policiais e traficantes. A aceitação do "estado de violência" aparece na classe média na forma da cultura do medo, que se manifesta em praças e prédios gradeados, condomínios fechados ou na transformação dos shoppings em centros de lazer seguro. Entre os pobres, a expressão desse fenômeno pode estar na imitação dos códigos dos bandidos, no surfe ferroviário ou pichações a monumentos. "É a busca frenética de emoção por pessoas que não se consideram aceitas pela sociedade", observa o arquiteto Manoel Ribeiro, diretor cultural da Casa da Paz, em Vigário Geral. A alternativa, segundo ele, está em investimentos sociais, culturais e urbanísticos para que as favelas possam ser novamente parte positiva da cidade (O ESP).