Levantamento feito há três anos pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e divulgado no catálogo "Ação Invisível", traduzido para o inglês, mostrou que 620 entidades trabalham no Rio com Infância pobre", das quais 43 se ocupam diretamente dos menores abandonados. Segundo o levantamento, mais da metade dessas entidades são Organizações Não-Governamentais (ONGs). Outra pesquisa, desta vez realizada em 1992 pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), coordenado pelo sociólogo Herbert de Souza, mostrou que 692 menores dormem embaixo de marquises e praças cariocas, 70% com família. Como os números não se alteraram nesses dois últimos anos e por uma questão de simples matemática, cada uma das 43 entidades poderia cuidar de 16 menores de rua e assim remediar um dos principais problemas sociais e humanos da cidade. Não é o que ocorre. A situação continua do mesmo jeito porque essas entidades lucram com os
83760 meninos de rua, critica o juiz Libórni Siqueira, da 1a. Vara de Menores do Rio. "Elas não têm interesse em reverter essa situação", afirma. Segundo o juiz, não é por falta de verbas que a situação continua dramática. Segundo cálculos extra-oficias, cerca de 300 ONGs-- 6% do total estimado pelo setor-- se dedicam à causa do menor abandonado. Somente quatro ONGs-- Centro de Defesa dos Direitos Humanos Bento Rubião, Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), Associação Beneficiente São Martinho e Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE)-- movimentaram, no ano passado, US$2,3 milhões, ou seja, mais de US$3 mil por ano para cada criança que vive embaixo das marquises e praças cariocas. "Nem todas as entidades envolvidas com a questão estão voltadas para o atendimento", explica o pedagogo Ivanir dos Santos, secretário-executivo do CEAP. No ano passado, a entidade movimentou US$30 mil e, este ano, saltou para US$150 mil, basicamente com recursos internacionais. O juiz Siqueira acusa o lobby das ONGs de impedir a criação de conselhos tutelares no Rio, órgão que teria a função de encaminhar os menores para os centros de assistência conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente. As ONGs são uma força paralela, comenta. Pelos seus cálculos, a cidade precisa de 30 conselhos para aliviar a vara de menores que atende 200 pessoas por dia. Segundo Ivanir Santos, as ONGs não fazem nenhum lobby contra os conselhos, o Estado é que não toma a iniciativa de criá-los.