A australiana Cheryl Overs, de 34 anos, está no Rio de Janeiro há três semanas para conversar com brasileiros e brasileiras que vivem da prostituição e já chegou a uma constatação: a situação da prostituição no Brasil se assemelha à das Filipinas e à da Tailândia. Cheryl é a coordenadora da Rede Internacional de Projetos em AIDS e Trabalho Sexual, uma organização não-governamental (ONG) que em julho de 1995, durante a Conferência dos Direitos da Mulher, em Pequim (China), se fará representar por uma delegação para falar sobre prostituição em todo o mundo. Será a primeira vez que as prostitutas terão voz numa reunião da Organização das Nações Unidas (ONU). "O futuro da prostituição está nos sindicatos. É através deles que os trabalhadores do sexo terão direitos reconhecidos e poderão ser tratados como profissionais". Na Austrália, as prostitutas e michês não recebem só preservativos e atendimento médico, como acontece no Brasil. Lá, eles são considerados trabalhadores do sexo e, como tal, têm horário regular de serviço e direito a aposentadoria, além de serem tratados como um profissional qualquer. No Brasil, a realidade é bem diferente: "Aqui, as empregadas domésticas limpam janelas penduradas do lado de fora dos prédios sem segurança. Dá para imaginar as dificuldades enfrentadas pelas prostitutas", observa Cheryl. Se no quesito quantidade a indústria do sexo brasileira está próxima de alcançar o patamar de países como as Filipinas e a Tailândia, onde a prostituição já está incorporada à economia local, no quesito qualidade a situação é muito melhor. Embora a prostituição seja legal no Brasil-- crime é explorá-la-- os trabalhadores de sexo contam, no máximo, com atendimento médico e preservativos distribuídos por ONGs. Por falta de estatísticas oficiais, também cabe às ONGs estimar o número de pessoas envolvidas na atividade. Por esses cálculos, pelo menos 500 mil crianças sobrevivem da prostituição, o que inclui receber como pagamento um prato de comida ou abrigo por uma noite. "Somos contra o trabalho infantil, seja na prostituição, seja em qualquer outra atividade. Tratar as crianças que se prostituem de uma forma diferenciada dos outros trabalhadores infantis é uma forma de preconceito que não ataca a raiz do problema", afirma Cheryl (O Globo).