QUILOMBOS BRIGAM PELA POSSE DA TERRA

Os quilombos do século XX se transformaram em caso de Justiça. Os descendentes de escravos brigam pelo direito à posse da terra em que vivem. Oficialmente, já foram registradas cerca de 360 comunidades negras em todo o país, segundo a Fundação Palmares. Mas o etnólogo Guilherme dos Santos Barboza, que estuda o assunto há mais de 40 anos, discorda desse número e acredita que existam mais de mil comunidades. Quase 300 anos após a morte de Zumbi, o líder do movimento negro do Quilombo dos Palmares, essas comunidades resistem e brigam pelos seus direitos. No Rio de Janeiro, há dois núcleos rurais: um numa fazenda no distrito de Santa Isabel, município de Valença, sul do estado, onde moram 60 famílias. O outro é conhecido como Quilombo do Campinho e fica num terreno perto de Paraty, a 255 km do Rio, onde há uma igreja católica e uma escola. Alguns habitantes têm emprego em Paraty-Mirim, mas a maioria trabalha na roça e mora em casa de pau-a-pique (trançado de bambu com barro socado). No país, os quilombos mais conhecidos são o de Rio das Rãs, na Bahia; o de Calungas, em Goiás; o de Oriximiná, no Pará; o de Guariterê, em Mato Grosso; o de Mucambo, em Sergipe; e o de Cafundó, em São Paulo. Nesses locais há conflitos de terras com fazendeiros da região e ameaças de construção de hidrelétricas nas terras ocupadas pelas comunidades negras. Hoje haverá festas nessas comunidades, em homenagem a Zumbi. Um dos palcos dessa festa será a comunidade de Ivaporunduva, a 50 km de El Dorado, cidade paulista do Vale da Ribeira. Ali, cerca de 120 representantes de vários quilombos irão discutir a posse da terra, com base no artigo 68 das Disposições Transitórias da Constituição, que estabelece a titularidade da terra aos remanescentes de quilombos. No Vale da Ribeira, há indícios de que 15 comunidades negras da região são de remanescentes de quilombos. Durante um ano e oito meses, a congregação das Irmãs de Jesus Bom Pastor elaborou um dossiê sobre três dessas comunidades, que será anexado ao processo para reconhecimento desses núcleos como quilombos (O Globo).