NEGROS CONTINUAM FORA DO TOPO DAS PROFISSÕES DE MAIS PRESTÍGIO

Se as dificuldades dos negros no Brasil se limitassem ao preconceito-- como o do vilão Raul Pelegrini, da novela "Pátria Minha", que chamou um empregado de "negro safado"--, seria simples de enfrentar o problema. Não é. Numa herança trágica dos 350 anos de escravidão, há na sociedade brasileira uma zona de interseção entre o conjunto dos negros e aqueles que os sociólogos convencionaram chamar de "excluídos". Segundo dados do estudo "Cor da População", publicado pelo IBGE em 1990, a maioria dos negros brasileiros está no estrato mais pobre da população. Eles trabalham mais horas do que os brancos e ganham salários menores. Também não têm acesso à educação. Na USP, apenas um em cada 100 estudantes é negro. É esse sistema que prende os negros brasileiros à pobreza. Os poucos que conseguem superar as barreiras não o fazem impunemente-- e é aí, ainda que de maneira disfarçada, que se evidencia o preconceito racial. "A idéia de que os negros com diplomas podem ter o mesmo acesso ao mercado de trabalho que os brancos é uma rematada mentira", diz o historiador Luiz Felipe de Alencastro, da UNICAMP. "As estatísticas disponíveis mostram que quase não há negros no topo de profissões de prestígio", afirma Alencastro, um estudioso da escravidão. Dos 650 mil bancários brasileiros, só 1% é de negros. "A maioria dos bancários negros é lotada em serviços internos, como a compensação de cheques", diz Celso Fontana, da Subcomissão do Negro da Ordem dos Advogados do Brasil. A OAB, curiosamente, não sabe dizer quantos advogados são da raça negra. Os negros de classe média têm uma queixa em comum: para conseguir crescer na profissão eles têm que provar que são muito melhores do que os concorrentes brancos. "Disseminou-se a idéia de que o negro é incompetente. Por isso, exigem-se dele manifestações de competência que não são pedidas aos brancos", diz o pneumologista Tito Nery, um negro que preside o Sindicato dos Médicos de São Paulo (JB).