ZONAS DE LIVRE COMÉRCIO DESPREZAM MÃO-DE-OBRA RURAL

Zonas latino-americanas de livre comércio, como o MERCOSUL, menosprezam os interesses da mão-de-obra rural, que, sem a elaboração de reivindicações específicas, poderá ter acelerado seu processo de empobrecimento. Essa é uma das advertências lançadas ontem, em São Paulo (SP), por Jacques Chonchol, 68 anos, ex-ministro da Agricultura do Chile (1970-1973) e ex- pesquisador do Instituto de Altos Estudos da América Latina da Universidade de Paris (1974-1994). Convidado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, Chonchol argumentou que os trabalhadores rurais estão novamente em situação delicada. Disse que, do início dos anos 70 até hoje, a agricultura no continente aumentou suas exportações anuais de US$7 bilhões para US$30 bilhões e conseguiu manter crescimento de 3% ao ano. Mesmo assim, apenas entre 1980 e 1990, estudos da ONU revelam que os pobres e miseráveis no campo passaram de 56% para 61% no conjunto dos países da América Latina. É uma maneira de constatar que a distribuição dos ganhos foi desigual entre proprietários e não proprietários de terras, e que o campo continua como um foco cada vez maior de tensão social. A rigor, afirma Chonchol, o fenômeno corresponde à repetição de um ciclo que a América Latina atravessou entre 1850 e 1930, quando a incorporação de novas áreas à agropecuária-- como o pampa argentino-- e a generalização da estrutura fundiária permitiram a acumulação de riquezas e sua paralela má distribuição. Mecanismos como o MERCOSUL, diz ele, se fundamentam na supressão de barreiras aduaneiras mas não instituem, como o faz a União Européia, políticas integradas de desenvolvimento agrícola. Com isso, determinado país perderá a competitividade se der a seus trabalhadores direitos inexistentes no país vizinho, enquanto todos, em conjunto, tendem a ficar mais vulneráveis à concorrência de outros blocos e ao escancararem suas fronteiras à exportação. "Não basta crescimento econômico nem um esforço de integração regional, se não forem também abordados os problemas sociais de fundo", concluiu (FSP).