No encontro que manteve ontem com dirigentes sindicais, o presidente José Sarney propôs a retomada das discussões sobre um entendimento entre governo, empresários e trabalhadores. Segundo Sarney, é possível se estabelecer uma "agenda política, econômica e social entre os diferentes segmentos da sociedade, que o governo se encarregaria de executar". Participaram da reunião com Sarney os presidentes das centrais sindicais CUT (Central Única dos Trabalhadores), CGT (Central Geral dos Trabalhadores) e USI (União Sindical Independente), além dos presidentes das nove confederações nacionais dos trabalhadores, entre as quais a CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura). A reunião contou ainda com a participação do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos) e do embaixador Rubens Ricúpero, porta-voz do governo durante o encontro. O ministro do Trabalho, Almir Pazzianotto, não participou da reunião. Sarney afirmou estar tão decepcionado quanto os trabalhadores com os resultados do Plano Cruzado II, que inaugurou, em novembro passado, a fase de descongelamento dos preços e a volta da inflação. Ele se disse traído por previsões que não deram certo. O presidente da CUT, Jair Meneghelli, afirmou que "se o Sarney pensa que a CUT vai fazer pacto, vai cair do cavalo". Já o presidente da CGT, Joaquim dos Santos Andrade, disse que "o que está em discussão é a participação dos trabalhadores na formação da política econômica". Para o diretor do DIEESE, Walter Barelli, a única conquista do encontro foi a conquista de um canal permanente junto ao governo, com possibilidade de influir na política salarial. Durante a reunião os líderes sindicais cobraram do presidente da República resposta às reivindicações contidas no documento conjunto elaborado pelas três centrais sindicais do país. Sarney respondeu o seguinte: reajuste geral dos salários-- ele propôs aos trabalhadores que, na próxima reunião, apresentem sugestões para mudança da política salarial; reajuste mensal dos salários-- prometeu não alterar o sistema da escala móvel (reajuste automático dos salários toda vez que a inflação acumulada atingir 20%); salário-mínimo real-- o valor do salário-mínimo será aumentado progressivamente para não causar impacto sobre a inflação; congelamento de gêneros de primeira necessidade e tarifas dos serviços públicos-- o presidente descartou a possibilidade de atender esta reivindicação; reforma agrária-- admitiu que o processo está lento e que mudanças mais profundas dependerão da Constituinte; garantia e estabilidade no emprego-- as mudanças dependerão também da Constituinte, por enquanto prevalece as negociações diretas entre patrões e empregados; preservação das estatais contra a privatização-- Sarney garantiu que estatais produtivas não serão privatizadas; estabelecimento de um índice nacional de inflação elaborado com a participação do DIEESE-- o governo se compromete a estudar uma fórmula de aproveitamento dos dados do DIEESE, e será incentivada a criação de um grupo conjunto do órgão e do governo; jornada de 40 horas-- tem que ser negociado entre as partes; ensino e saúde gratuitos para todos em todos os níveis-- esta é a meta do governo, mas não será atingida a curto prazo; fim da locação de mão-de-obra temporária-- a questão deve ser estudada a médio prazo; manutenção da aposentadoria por tempo de serviço, independente do limite de idade-- seria criada uma comissão de trabalhadores para discutir o tema com o Ministério da Previdência; liberdade e autonomia sindical-- aprofundamento específico depende da Constituinte; fim da especulação financeira-- o governo estuda a lei antitruste; fim imediato da sangria da dívida externa-- o governo suspendeu o pagamento de juros e limitou o envio do pagamento da dívida a 2,5% do PIB ao ano; fim da Lei de Segurança Nacional, Lei de Greve e medidas de emergência-- o presidente se prontifica a estudar todas as reivindicaçõe, exceto aquelas que dependam do exame da Constituinte, como é o deste item; acesso do movimento sindical aos meios de comunicação de massa durante a Constituinte-- não é assunto do Executivo; extinção do processo de sindicalistas instaurados com base na lei de greve e demais mecanismos de punição aos grevistas-- também terá que ser analisado pela Constituinte; e reajuste dos proventos dos aposentados e pensionistas, garantidos os vencimentos nunca inferiores ao salário-mínimo vigente. O governo assina amanhã a lei que cria o piso de Cz$1.300,00 para o aposentado, entre outras vantagens. O salário-mínimo atual é de Cz$1.368,00 (JB) (FSP).