EXÉRCITO PREVÊ CERCO E OCUPAÇÃO DE MORROS

A ação militar no Rio de Janeiro prevê desde o cerco até a ocupação das favelas onde se pretende combater o narcotráfico. A informação está em um documento reservado do Comando Militar do Leste, intitulado "Operações Urbanas de Segurança em Favela - Idéias Para Formulação Doutrinária". Os militares prepararam o documento em outubro passado. Foi no dia 31 daquele mês que se firmou o convênio entre os governos federal, do Rio e as Forças Armadas para combater o crime no Rio. Como foi preparado ao longo do mês de outubro, o documento revela que o Exército se preparava para atuar no combate ao crime no Rio antes de ter sido assinado o convênio com os governos federal e do Rio. Logo na página três do documento, o Exército mostra que vislumbrava até cenários mais extremos para o Rio: "As operações de combate ao crime organizado em favelas desenvolvem-se (...) com tropas de valor de brigada ou superior, em apoio à decretação do Estado de Sítio". O documento começa com uma descrição geral da situação das "449 áreas de favela na cidade do Rio de Janeiro, onde vivem 887.750 habitantes". Há um perfil dos traficantes, identificados "na faixa de 15 a 25 anos". Segundo o documento, o traficante morre cedo, vítima dos confrontos entre as próprias
83599 quadrilhas ou com a polícia. O documento do CML é escrito na forma de um manual prático para a ação militar em favelas cariocas. O detalhamento começa no ponto 7, que fala de orientação do planejamento e emprego. Ao contrário do que vem divulgando para consumo externo, o Exército desde o início pensa em coordenar ações diretas nos morros onde há focos de tráfico. Um subitem no capítulo de planejamento revela que os militares têm uma preocupação específica com o efeito político da operação: "Nas operações de Segurança Integrada participam de forma destacada as expressões política e militar do Poder Nacional. É preciso recordar que uma vitória puramente militar pode se transformar em uma derrota política, o que requer profunda reflexão sobre a necessidade e intensidade da ação". Outra preocupação dos militares se refere à conquista e à "manutenção do apoio da população". Para isso, o Exército recomenda: "A` apresentação individual, o comportamento do soldado e uma rígida disciplina de tiro, sem prejuízo para a ação militar, contribuem para esse fim (conquistar o apoio da população)". A sequ"ência das ações listadas, segundo o documento, não é necessariamente cronológica. A ação psicológica ocorre durante toda a operação. Sobre o término da operação, os militares planejam anunciar o período que pretendem permanecer ocupando uma favela. Há um cuidado com a imagem da instituição no tocante à permanência das Forças Armadas na favela: "(É preciso) evitar o engajamento do Exército em atividades ligadas a ação de governo, já que a população carente troca a liderança do terror pela tutela da Força Tarefa, o que pode vir a comprometer a imagem da Força" (FSP).