Um levantamento da 2a. Vara de Infância do Juizado de Menores do Rio de Janeiro indica que há uma guerra não declarada contra crianças e adolescentes na cidade. Pelos dados de janeiro a julho deste ano, 653 crianças e adolescentes tiveram morte violenta. Desse total, pelo menos 336 menores foram assassinados, contando-se apenas os crimes praticados por armas brancas e de fogo (outras ocorrências teriam sido acidentais). No caso dos assassinatos, são 48 por mês, em média, ou dois assassinatos por dia. O mais alarmante, porém, é que 95% desses jovens-- ou seja, 320 menores-- não tinham passagem pelo juizado do Rio. O próprio juiz Siro Darlan, entretanto, adverte que, entre esses 320 menores sem passagem no juizado, muitos estariam envolvidos em atividades criminosas, principalmente no tráfico. "Os menores que trabalham no tráfico estão nos morros. A polícia não chega até eles e, por isso, não passam pelo juizado. Mas, mesmo que o percentual dos que cometeram algum tipo de infração chegasse a 50%, a outra metade não é acusada de nada", afirmou. A faixa etária de maior incidência de mortes é de 15 a 17 anos, onde se concentram 406 vítimas, em sua grande maioria do sexo masculino. Os números rompem um velho estigma de que a Baixada Fluminense seria o local de maior concentração de mortes da Região Metropolitana do Rio. De acordo com a pesquisa, 60,49% das mortes ocorreram na capital, 26,95% na Baixada, 5,97% em Niterói e 6,58% no interior do estado. Para o coordenador do Movimento Viva Rio, antropólogo Rubem César Fernandes, a redução no número de homicídios na Baixada Fluminense tem relação direta com o trabalho desenvolvido pela polícia contra os vários grupos de extermínio que atuavam na região. Quem mata crianças e adolescentes? A pergunta continuará sem resposta, se depender das estatísticas da Secretaria de Polícia Civil. Nos sete primeiros meses deste ano, morreram em média 45 menores por mês. Desses homicídios, uma média mensal de 71,32% não têm autoria definida. O que significa dizer que os inquéritos não tiveram indícios suficientes para se transformarem em processos. Para Rubem César Fernandes, a falta de informações para se chegar à autoria do crime está estreitamente ligada à lei do silêncio. Ele defende a teoria de que a população tem medo de falar sobre os crimes porque não confia na polícia carioca. Somente nos primeiros seis meses do ano, 1.082 crianças e adolescentes infratores passaram pela 2a. Vara do Juizado de Menores, 792 deles envolvidos em crimes contra o patrimônio, o que representa 73,2% de todos os casos analisados no primeiro semestre. As drogas-- o tráfico e o uso-- aparecem como a segunda causa de infração, com 127 casos (11,74% das ocorrências). Os crimes contra pessoas vêm em terceiro lugar, com 101 registros (9,33%). Nessa última classificação, estão incluídos 10 homicídios (O Globo).