FOME CAUSA DISTÚRBIOS MENTAIS NO NORDESTE

Psiquiatras e assistentes sociais culpam a fome pelo alto índice de distúrbios mentais que vem sendo registrado em favelas do Nordeste. Já houve casos de pais de família terem alucinações, como acontece nos desertos. Só que, em vez de oásis, eles acreditam ver comida nas panelas. Encontrei um homem que, de tanto ver os filhos passarem fome, chegou um
83463 dia em casa com um pedaço de pano velho, ordenando à mulher: Bota essa carne aí no fogo", conta Marieta Koike, presidente da Associação Brasileira de Ensino do Serviço Social e pesquisadora do Centro Josué de Castro, um dos mais respeitados do Nordeste. O médico Durval Bezerra, diretor do Hospital Psiquiátrico Ulisses Pernambuco, disse que centenas de pessoas procuram o hospital em pleno surto de loucura, que passa após receberem abrigo e comida. "A luta estressante pela sobrevivência pode ser um fato desencadeador de um surto", afirmou. De acordo com a médica psiquiátrica Gilvanice Aguiar, ex-diretora do hospital, tal estresse pode levar o indivíduo a se comportar como um doente mental, sem que o seja. "São portadores de patoplastias, ou seja, apresentam os sintomas de uma doença, muitas vezes sem ter a doença", disse. Uma creche comunitária, criada por iniciativa da própria população carente da cidade, mudou a vida em Camarajibe, na Grande Recife (PE). Se não fosse ela, as 110 crianças assistidas não teriam acesso a 40% de sua alimentação diária. Na creche, tudo se aproveita: cascas de ovo (transformadas em farinha rica em cálcio, para adicionar aos alimentos), de frutas (aproveitadas em sucos) e talos de verduras. Os pais colaboram com o mínimo, quando podem. Se não podem, pagam com dois dias de trabalho na creche. As crianças, por sua vez, ajudam a cultivar a horta e o pomar que abastecem a entidade (O Globo).