Os meios alternativos de matar a fome estão cada dia mais dramáticos nas capitais nordestinas. Os famintos disputam comida com urubus, devoram ratos, sapos e cobras, recorrem involuntariamente ao canibalismo, comem barro ou então enganam o estômago-- inclusive o das crianças-- com cachaça. Diariamente eles avançam sobre caminhões de lixo de supermercados ou de hospitais em busca de comida. Há crianças que vão se alimentar nos presídios onde os pais cumprem pena. Outras fingem estar doentes para ter direito a uma refeição em casas de saúde. A merenda escolar é a única opção de comida para milhões. Atitudes assim, já corriqueiras, revelam as estratégias de sobrevivência de um exército de esquálidos na guerra contra a fome. As batalhas travadas no Nordeste mostram até uma estranha hierarquia no direito à vida, que começa na distribuição das migalhas de comida. Primeiro vêm os que trabalham, as crianças e os doentes. Depois, adolescentes e adultos. Por último, os velhos. Eles próprios abrem mão desse direito básico: Eu só como as verduras que cato no lixo e cozinho com água e sal. A
83444 minha comida é um purgante porque o feijãozinho melhor dou para o meu
83444 filho, que é doente, conta Maria da Conceição, de 58 anos, residente no populoso bairro de Casa Amarela, na zona norte de Recife (PE). A busca desesperada por alimentos, não importa se estragados, movimenta mais de 20 mil pessoas por mês na Central de Abastecimento (Ceasa) de Recife. Mais de 96 toneladas de hortifrutigranjeiros, sem qualidade para serem vendidas, são recolhidas todo mês por catadores, em sua maioria mulheres e crianças. Os produtos em melhor estado são vendidos ou trocados por outros alimentos na vizinhança. Os piores, eles comem. De acordo com documento recente do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), a região concentra 7,2 milhões de miseráveis urbanos. Ao todo, o Nordeste possui 17 milhões de pessoas da linha de pobreza. No entanto, não é preciso recorrer aos grotões do agreste e do sertão para presenciar de perto o desespero provocado pela fome. Nas capitais, ele é gritante. Em cidades como Recife, 84% da população recebem até dois salários-mínimos e 47% não têm renda alguma. Números semelhantes são observados nas outras capitais nordestinas. A fome nas áreas urbanas do Nordeste seria muito maior, porém, se não existisse a Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida. Só em Pernambuco, o comitê estadual distribuiu 700 toneladas de alimentos ano passado. Em 1994 a quantidade de doações caiu para 40 toneladas. Em compensação, as comunidades se organizaram e agora conseguem mantimentos diretamente nos supermercados. A rede de Supermercados Bom Preço, a maior de Pernambuco, deixou de jogar no lixo semanalmente cerca de seis mil quilos de alimentos sem condições de serem vendidos. Esses alimentos são recolhidos por representantes de 26 comunidades, que preparam sopões distribuídos gratuitamente para mais de quatro mil famílias. Na Paraíba, funcionários do Banco do Brasil financiam dois sopões por semana para cerca de 200 pessoas. E, ciente de que a merenda escolar é fundamental para os filhos dessas famílias, a prefeitura de Recife começou em 1993 a distribuir refeições nas férias, quando mais de 80% dos 110 mil alunos da rede municipal continuam indo à escola (O Globo).