DEVASSA EXPÕE CRISE DO SETOR ELÉTRICO

Apenas cinco das 60 empresas do setor elétrico não estão operando com prejuízos. Na maior parte delas, esses prejuízos foram causados por ingerência administrativa ou política de perdas acumuladas nos últimos 10 anos, com o represamento de tarifas para conter a inflação. As conclusões são do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (DNAEE), que fez uma devassa em todo o setor. "O relatório é uma bomba", avisou o ministro das Minas e Energia, Delcídio Gomez, que destaca a Coelba (BA), Celpe (PE), Coelce (CE), a Celesc (SC) e a Copel (PR) como as empresas que menos precisam de ajustes. Com uma análise da situação tarifárias das empresas, o DNAEE comprovou, por exemplo, o inchaço das folhas de pagamento, descobriu que as tarifas atuais são suficientes para dar lucros exorbitantes e identificou as razões pelas quais empresas modelo se tornaram deficitárias. O problema mais recorrente é o uso político das empresas, que eram consideradas modelo pelo Banco Mundial (BIRD) até os anos 80. O consenso no governo é que as direções das concessionárias, em acordo com interesses políticos, foram as principais causadoras de prejuízo. O DNAEE descobriu que o dinheiro das empresas foi aplicado em obras desnecessárias ou caras e que empresas como a Cesp foram transformadas em cabides de emprego. Depois de cobrar uma dívida de US$3,2 bilhões e não receber um centavo sequer, o Tesouro Nacional decidiu inscrever sete, das oito empresas federais do setor elétrico, no Cadastro de Inadimplentes (Cadin). Quem entra nessa lista do Cadin não pode tomar dinheiro emprestado junto a bancos federais nem participar de concorrências públicas. Além disso, corre o risco de ter o débito inscrito na Dívida Ativa da União e, por isso, sofrer um processo de cobrança judicial. A única empresa do setor elétrico que se salvou foi a Escelsa (ES), que está em processo de privatização. O curioso é que a maioria das estatais inscritas no Cadin tem créditos a receber do governo, relativos às Contas de Resultado a Compensar (CRCs), mecanismo que, nas duas últimas décadas, funcionou como um subsídio às tarifas de energia elétrica. Esses CRCs geraram uma dívida para a União de US$26,3 bilhões (JB).