Um poema de Manuel Bandeira, depoimentos de meninos de rua e recentes estatísticas oficiais sobre a situação dos marginalizados no país apontam, num texto-base preparado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o roteiro para a reflexão dos católicos sobre "os excluídos da sociedade", tema da Campanha da Fraternidade de 1995. A Igreja faz uma autocrítica de sua atuação no campo social e responsabiliza o capitalismo neoliberal pela exclusão de milhões de brasileiros da vida econômica. O modelo de desenvolvimento progressivamente implantado no Brasil se
83139 situou e se situa no quadro do capitalismo liberal que, por várias
83139 razões, não chegou a superar as marcas mais perversas do capitalismo
83139 selvagem, afirma o documento intitulado ""Eras tu, Senhor?"". ""As propostas neoliberais garantem a minoria de privilegiados, a quem é reconvertida a nova distribuição do capital", denunciam os bispos, depois de afirmar que os recentes encaminhamentos de cunho neoliberal não demonstraram
83139 sensibilidade social para sanar essa situação. Ao identificar os principais grupos de marginalizados-- crianças abandonadas, idosos, prostitutas, presos, doentes, drogados, deficientes e desempregados--, o documento observa que esses são apenas alguns exemplos. Muitos são os motivos que podem levar uma pessoa a esse estado, alerta o texto, ao enumerar o drama de famílias que não conseguem pagar aluguel, de adolescentes que fogem da violência doméstica, de trabalhadores que perdem o emprego e de catadores de papelão. Essas pessoas, observam os bispos, são excluídas "porque são pobres, porque não têm saúde, porque inspiram medo, porque enfeiam a cidade, porque sua moral é considerada duvidosa" e "porque estão ocupando lugar público". No capítulo dedicado aos encarcerados, a CNBB afirma que "o atual sistema penitenciário do Brasil é totalmente ineficaz, desumano e desumanizante". Lembra ainda que existem aproximadamente 130 mil presos em 297 estabelecimentos penais numa situação que "não recupera nem ressocializa ninguém". A Campanha da Fraternidade alerta também para a tragédia das vítimas da AIDS, observando que 90% dos 50 mil doentes já identificados pelo Ministério da Saúde são adultos entre 20 e 50 anos de idade. "O alto custo do tratamento, que não cura mas pode prolongar a vida, torna essas pessoas indesejáveis para os planos de saúde e pesadas para o orçamento familiar da enorme maioria", denuncia o texto. A Igreja acusa e condena, mas também faz um "mea culpa". "Nem sempre soubemos ser sensíveis aos problemas que outros grupos religiosos enfrentam ou sofrem", confessam os bispos, depois de denunciar a discriminação contra não-católicos (JB).