A inicialmente bem-humorada campanha "Rato no saco, filé no prato", lançada por comerciantes de Timbaíba (PE) para combater a infestação da cidade por ratos, acabou revelando o meio alternativo e repugnante de se matar a fome no lado mais miserável do município: churrasco de rato. Neste fim de semana, centenas de moradores empreenderam verdadeiras caçadas para trocar um quilo de ratos-- vivos ou mortos-- por igual quantidade de carne de vaca de primeira. Enquanto isso, na periferia da cidade, por absoluta falta de informação, os animais eram capturados do lixo e dos esgotos e devorados inteiros por famílias famintas. Para essas pessoas, que não chegaram a tomar conhecimento da campanha porque não têm rádio nem TV e vivem marginalizadas, carne de rato é um alimento comum, muitas vezes o único. Elas comem os ratos insossos. Na localidade de Sapucaia, a três quilômetros do centro de Timbaíba, Damião José da Silva, de 30 anos, e Edileusa Félix da Silva, de 24 anos, há 10 anos não comem carne de vaca. Os dois vivem da venda de papel e plástico recolhidos no lixão de Sapucaia. Nenhum dos dois sabia da campanha "Rato no saco, filé no prato". Anteontem, em meio ao mau cheiro e aos mosquitos que, como eles, sobrevivem dos restos do lixo, Damião e Edileusa comeram ratos e batatas-doce que tinham sido jogadas fora. Depois de cozinharem as batatas, aproveitaram o calor do braseiro para queimar os pelos dos ratos, a primeira etapa para servi-los. "Depois de queimar os pelos, a gente raspa tudo com a faca e bota no braseiro de novo. Quando ele começa a ficar durinho a gente tira do fogo, abre a barriga e retira o fato (as tripas). Depois bota na brasa de novo e deixa tostar para comer assim mesmo, insosso. Se tivesse sal, ficava mais gostoso", contou Edileusa, com chocante naturalidade. Os quatro filhos de Damião e Edileusa-- Edilene, de seis anos, Edilane, de três, Diógenes, de dois, e Diogo, de oito meses-- iam passar o último dia 15, a água e rato. Os pais recebem de R$0,25 a R$0,60 por cada quilo de papel e plástico recolhido do lixo (O Globo).