AUTORITARISMO DE ENÉAS ATRAI QUATRO MILHÕES DE VOTOS

O estridente Enéas Ferreira Carneiro revelou-se o mais surpreendente fenômeno das eleições presidenciais deste ano. Em 1989, Enéas tinha o nome do deboche, e, em 15 segundos diários na televisão, colocou-se num pouco importante 12o. lugar na disputa presidencial. Cinco anos depois, ele ampliou seu eleitorado para além dos debochados e, com cerca de 4,2 milhões de votos (7% do total), ultrapassa dois caciques da política brasileira: Orestes Quércia (PMDB) e Leonel Brizola (PDT). A humilhação imposta ao brizolismo e ao quercismo não pára por aí. Enéas ganhou de ambos em seus próprios redutos eleitorais: Rio de Janeiro e São Paulo-- capital e interior. O médico acreano e candidato do Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona) ganhou o direito de não ser mais desprezado. O voto em Enéas não é mais uma opção amorfa e difusa que encaminha um protesto à ordem política. Este ano, quem quis protestar escreveu na cédula o nome de Ayrton Senna. O voto em Enéas foi uma opção definida. Resta saber que opção é essa. Se as pessoas não votaram por protesto é porque identificaram alguma
82904 virtude no candidato, analisa o cientista político Jairo Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), que acaba de concluir uma pesquisa sobre o comportamento dos moradores da cidade do Rio de Janeiro, onde Enéas conseguiu seu melhor desempenho-- cerca de 10% dos votos. "Ele fala rebuscado e encarna os clichês que o homem comum tem de uma pessoa iteligente", diz Nicolau. Na pesquisa do Iuperj, o que se encontrou foi um eleitorado majoritariamente jovem, feminino, de escolaridade secundária e morador dos subúrbios de classe média. Divergências à parte, as pesquisas coincidem em mostrar que o eleitorado de Enéas tem chance de fazer uma opção eleitoral consciente. Quem é o eleitor que se deixa seduzir por um candidato que grande parte da opinião pública não se cansa de considerar uma farsa? Sabe-se que Enéas conseguiu suas melhores performances nesta eleição em alguns dos colégios eleitorais tidos como os mais politizados do país. Além do Rio de Janeiro, ofereceram índices recordes ao moralista Enéas o Distrito Federal (cerca de 9,8%); o Rio Grande do Sul (cerca de 9,3%); e São Paulo (cerca de 8,8%). De outro lado, foi no Nordeste do país que o discurso de Enéas teve menor receptividade. Se Enéas não tivesse sido tão ignorado por seus adversários, talvez o eleitorado brasileiro, hoje, pudesse conhecê-lo melhor. A única denúncia que veio a tona contra ele, nessa campanha, foi a de que ele era gazeteiro nos hospitais públicos em que trabalha. "Ele cresceu porque ninguém bateu nele. Enéas desabaria se seus adversários centrassem fogo em seu discurso autoritário e no falso moralismo", analisa Antônio Manuel Teixeira, diretor do Datafolha (GM).