O virtual presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, disse ontem que vai governar com os partidos e que quer o apoio de todas as forças políticas e sociais para administrar o país. Em entrevista coletiva, a primeira concedida após o resultado parcial do primeiro turno, o senador traçou, ao longo das respostas, o que seria o perfil do seu governo. "Vou governar conversando com os partidos e se eleito peço o apoio de todos", disse. A seguir, os principais pontos do pronunciamento e da entrevista de FHC: Itamar Franco-- "O presidente entendeu que o governo tinha um desafio de manter as instituições funcionando e não poderia enfrentar as grandes questões nacionais se não houvesse determinação de combater a inflação e dar ao país uma expectativa de crescimento econômico e rumo no futuro". Cargos-- "Até 1o. de janeiro, quaisquer rumores sobre orientações do governo, sobre algum ministério ou sobre idéias transmitidas por assessores, são rumores sem fundamento. Nunca cogitamos de distribuição de cargos. No regime presidencialista, cabe ao presidente indicar os nomes dos integrantes de sua equipe. Sei que ministro não é um cargo técnico, é político. Mas para fazer as políticas do programa do governo, não para fazer nomeações aqui e ali". Democracia-- "Um país como o nosso, que soube resistir ao processo da autocracia para transformar-se numa democracia que tem agu"entado tanta injustiça social e tem mantido sua crença na democracia, não é manipulável, o eleitor sabe". Imprensa-- "Não há democracia sem imprensa livre e ativa. Muitas vezes incomoda. Quando incomodou tentei passar desapercebido o incômodo, porque acho que numa democracia é preciso informar. A`s vezes o atropelo é grande, talvez não fosse necessário, mas a informação não pode ser negada e a crítica livre tem de ser mantida. A acidez de um e outro comentário é altamente compensado pelo fato de sabermos que essa acidez deriva da liberdade e não da imposição". Lula-- "Quero agradecer o comportamento de meu ex-adversário mais próximo, que já não o é, o líder, o Lula, que manteve a campanha dentro dos limites do razoável". Aliados-- "Agradeço àqueles que num primeiro momento entenderam que o Brasil precisava de um rumo e que nós precisaríamos convergir independentes das nossas posições anteriores e de interesses partidários". Política externa-- "Na política externa o Brasil tem seguido a linha da convergência. Precisamos nos preparar para entrar no novo século com uma posição mais ativa no cenário internacional. No mundo atual, os presidentes e chefes de Estado fazem eles próprios a política externa". Relação com o Congresso-- "Vou governar conversando com os partidos e com o Congresso Nacional. Não se governa de forma autocrática. É necessário dialogar não só com o Congresso, mas com o país". Reeleição-- Em quatro anos dá para fazer muita coisa. O presidente Itamar fez muito em dois anos. Não creio que seja correto ficar discutindo reeleição ou extensão do mandato agora. Se eu estivesse no Congresso-- eu estava afastado quando isso foi votado-- teria votado a favor da reeleição". Reforma administrativa-- "Nada de superministérios. Tem que haver órgãos que funcionem. Sou contrário a atos espetaculares, de impacto, mas que não funcionam. Acho que não precisamos ter tantos ministérios". Privatização-- "A PETROBRÁS não é privatizável por várias razões, entre as quais porque o volume de recursos necessários à privatização é inalcançável. Mas além disso, há outras razões que não aconselham. Agora, é possível ampliar a competição em algumas áreas da PETROBRÁS. Nós temos pelo menos 16 hidrelétricas paradas, porque o Estado não tem recursos para prossegui-las. É necessário que se faça parceria. O Estado não tem mais recursos nem a sociedade se dispõe a pagar impostos para gerar recursos para isso. Isso vale para a telefonia e para as energéticas. Há certos desenvolvimentos tecnológicos que exigem autoridade pública, o que não quer dizer estatal. Não é privatizar a qualquer custo. Nós vamos definir um modelo que permita o investimento do capital privado nacional e estrangeiro". Indexação-- "Acabar com a inflação significa acabar com a indexação. Isso é um processo e nós vamos marchar nessa direção". Salários-- "Eu sou favorável à livre negociação". Inflação-- "Eu sempre disse que a inflação é um processo que se enraizou e que ela não seria eliminada por um golpe só, seria outro processo, uma luta contínua. Em qualquer país do mundo é assim. É um processo, que tem de ser acompanhado dia-a-dia pelas autoridades do governo. Quanto à necessidade de reformas constitucionais, eu sempre fui partidário delas, mas nós sabemos também que teremos o Fundo Social de Emergência, para dar um período de possibilidade de ação por parte do governo" (JB) (O ESP) (O Globo).