O Brasil continua a pagar ao Banco Mundial (BIRD) bem mais do que recebe. No último ano fiscal, encerrado em 30 de junho, a diferença negativa chegou a US$1,399 bilhão. Nos últimos cinco anos, desde 1990, o Brasil pagou ao BIRD em amortização mais juros US$5,917 bilhões mais do que recebeu em empréstimos. O que aconteceu, portanto, é que o ingresso de capitais privados ajudou a cobrir repagamentos ao Banco Mundial. A situação ná é exclusiva do Brasil. Para a América Latina, como um todo, o saldo negativo do BIRD foi de US$4,3 bilhões no ano passado e US$11,1 bilhões nos últimos cinco anos. Mas da metade desse total, de toda forma, correspondeu ao Brasil. No ano passado (ano fiscal, de julho de 1993 a junho deste ano), os desembolsos do BIRD ao Brasil somaram apenas US$437 milhões, ainda que o banco tenha assumido compromissos num total de US$1,137 bilhão, envolvendo sete projetos. Em contrapartida, o Brasil pagou, nesse período, US$1,292 bilhão em amortizações e mais US$544 milhões de juros. Várias razões explicam esse fluxo fortemente negativo. O fato de haver divergências não resolvidas sobre a consistência macroeconômica do Brasil fez com que, nos últimos anos, o país não tivesse acesso aos empréstimos de ajuste estrutural, a exemplo do México e da Argentina. Esses empréstimos são de volume maior e desembolso mais rápido-- têm, portanto, um impacto muito mais significativo a curto prazo no balanço de pagamentos. O Brasil ficou limitado a empréstimos a projetos, de negociação normalmente complexa e que exige um desembolso maior de contrapartidas em moeda local, algo nem sempre simples em conjuntura de aperto orçamentário. Além disso, o Brasil acumulou um volume expressivo de empréstimos problemáticos, contratados e não desembolsados, usualmente por problemas locais, da inexistência de contrapartida em recursos a problemas técnicos. O total de empréstimos contratados e não desembolsados ao Brasil é de US$4,789 bilhões. Deste total, segundo fontes do banco, mais de US$2 bilhões correspondem a empréstimos problemáticos. O restante se explica pelo ritmo natural de desembolso dos projetos envolvidos. O Brasil tem, financiados pelo BIRD, 62 projetos, no valor de US$7,2 bilhões, dos quais apenas US$2,2 bilhões foram gastos até hoje. Dos US$5 bilhões restantes, cerca de US$2,5 bilhões já deveriam ter saído dos cofres do BIRD, o que não aconteceu porque o governo não tinha como cumprir o cronograma acertado com a instituição. O banco passou a enviar cartas aos ministérios, para alertar sobre o dispendioso atraso dos programas executados no Brasil. Dos 62 projetos, pelo menos 30 enfrentam problemas, a maioria subordinados aos ministérios da Integração Regional e da Agricultura. São projetos parados ou atrasados por falta de dinheiro do orçamento público prometido como contrapartida nacional, dificuldades na administração desses projetos e até abandono dos contratos pelos governos ou prefeituras (GM) (JB).