ENSINO DE MÁ QUALIDADE ATRASA O BRASIL

O emperrado ensino brasileiro está fazendo muito mais do que formar mal-- ou não formar-- sua população. Diante de um quadro em que a alta tecnologia e as máquinas complexas dominam cada vez mais o cotidiano das empresas-- e das pessoas--, a educação passou a ser a alma do negócio e o Brasil começa a pagar caro por não tê-la levado a sério. Se a falta de ensino de qualidade não fazia diferença num mercado que exigia trabalho mecanizado, sem envolvimento do trabalhador, agora, a boa formação-- que o país ainda não garante-- torna-se indispensável, como indicam os especialistas que participaram do seminário "Tecnologia & Desenvolvimento - O que Muda na Formação Profissional", realizado no Rio de Janeiro (RJ), semana passada, pelo SENAI. Ler, escrever e contar tornou-se formação profissional, explica o especialista em educação e trabalho do Banco Mundial (BIRD), Cláudio Moura Castro, que participou do evento. Isso é o principal instrumento de trabalho das empresas modernas, que se horizontalizaram. Um operário, hoje, deve saber ler manuais, conhecer as máquinas que maneja. Se ele não tem esse domínio já não consegue uma vaga no mercado". Moura Castro observa que conhecimentos que antes eram exigidos "somente fora das fábricas", hoje, são requisitados dentro. "Esses conhecimentos são justamente os oferecidos na escola". "Muito do que se tem que aprender na profissão, com uma boa formação básica, aprende-se sozinho", disse. A professora da Faculdade de Economia da UFRJ Vanilda Paiva, que pesquisa as relações entre trabalho e educação lembra que é a qualificação real que precisa se elevar. "Não adianta diploma sem conhecimento de fato por trás". O abismo criado no Brasil entre a demanda por melhor formação e a baixa qualidade do ensino é histórico. "Nos anos 70, o país não investiu em educação básica como deveria e era considerado um fenômeno: mesmo com baixa qualificação, conseguia crescer, produzid. Hoje, isso não acontece. O nível que qualificação brasileiro está abaixo do esperado em relação ao nível de desenvolvimento", afirma Vanilda. Ela alerta para outro fenômeno provocado pela modernidade e que também exige qualificação crescente: o desemprego gerado pelo avanço tecnológico. "A tendência é de partir cada vez mais para atividades por conta própria. Hoje, não nos preparamos só para um emprego, mas para a falta dele", disse. Ter acesso a um ensino profissionalizante de qualidade é privilégio de poucos no país. Segundo Cláudio Moura Castro, em contraste com o ensino acadêmico, a formação profissional privilegia a qualidade, mas não consegue atender senão uma fração pequena de felizardos. "As agências especializadas em formação profissional, como o SENAI e o SENAC, preocupam-se mais com seus mercados e clientes do que com o tamanho da população que poderia almejar algum tipo de treinamento", comenta. Isso nada tem de errado. O problema é que não há qualquer instância cuidando dos milhões que sobraram sem uma escola séria ou treinamento que compense a deficiência escolar". Para o especialista, uma vez que o Ministério da Educação "jamais se interessou verdadeiramente pelo assunto" e o Ministério do Trabalho é uma instituição "frágil" que contrasta com as "fortalezas" que são os dois serviços de formação, seria bem-vindo se o SENAI se ocupasse em apliar seus horizontes. "O SENAI não pode abandonar sua vocação cinqu"entenária de formar para a indústria moderna, já que não há como substituí-lo. No entanto, sem comprometer seus objetivos, a entidade deveria também pensar nos que sobraram e criar programas menos caros, que atinjam um público compatível com a demografia brasileira", afirmou (JB).