Os metalúrgicos do ABC paulista decidiram ontem, em assembléia, encerrar a greve nas montadoras de veículos, iniciada no último dia 12, e intensificar a mobilização para paralisar as fábricas de autopeças. Eles aceitaram o abono correspondente a 59 horas e 30 minutos de trabalho oferecido pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e aguardam proposta idêntica do Sindicato Nacional dos Fabricantes de Autopeças (Sindipeças). Já estão em greve perto de 10 mil metalúrgicos de autopeças-- 28% do total. A assembléia deliberou ainda movimentos de solidariedade aos grevistas. O presidente nacional da CUT, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, aposta que as próprias montadoras pressionarão os fabricantes de peças para que o acordo saia rapidamente. O abono de 59 horas e 30 minutos que será pago aos metalúrgicos em cinco de outubro corresponde a um reajuste de 27% sobre os salários de setembro. Embora o uso de índices esteja proibido entre empresários e trabalhadores-- que não querem problemas com o governo nem sugerir que esteja havendo reindexação da economia-- este abono é maior do que as perdas nos salários computados pelo DIEESE desde a conversão de salários para a URV. Segundo este instituto, o reajuste necessário para voltar à média salarial de fevereiro seria de 21,29%. Dois fatores contam a favor do governo. Por ser abono, este aumento não será incorporado oficialmente aos salários e também não será repassado aos preços. As vantagens para os trabalhadores também são grandes: haverá nova negociação em novembro (cinco meses antes da data-base da catagoria no ABC, que é abril) para equalização dos salários com os metalúrgicos de São Paulo, que estarão em data-base. Para o presidente da CUT, o reajuste foi uma vitória política. "Vou rodar todo o Brasil mostrando que é possível ganhar reajuste sim, apesar do plano". Sindicalistas comemoraram a quebra de uma das principais bases do Plano Real, que é a contenção de salários. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Heiguiberto Navarro, o Guiba, atacou a interferência do governo nas negociações e acusou o assessor especial para preços do Ministério da Fazenda, José Milton Dallari, de "cabo eleitoral de FHC" (O ESP).