LIVRO REVELA BASTIDORES DA TORTURA

Menos de 10 anos depois de encerrado o período militar no Brasil, 12 oficiais-generais confirmam no livro "Os anos de chumbo: memória militar sobre a repressão", publicado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a existência de uma organização independente, mas consentida, dentro das Forças Armadas, que agia à margem da lei e das hierarquias, com o propósito de arrancar confissões de presos políticos, combater e eliminar supostos inimigos. A atuação dessa organização é um dos temas mais delicados e traumáticos para as Forças Armadas e talvez para o país. No livro, publicação conjunta da FGV e Editora relume Dumará, o general Moraes Rego, chefe da Assessoria Especial do ex-presidente Ernesto Geisel, admite que o Exército foi levado a atividades policiais, sem o resguardo vigilante das normas
82443 regulamentares e do comportamento da ética militar, desviando-se de suas
82443 funções. E, ainda, que ""haveria um afrouxamento dos padrões militares de disciplina e de hierarquia, já comprometidos pelos desmandos dos Inquéritos Policiais Militares (IPMs)". O general não deixa dúvidas, ao acrescentar: "Os Destacamentos de Operação de Informações (DOI) foram aceitando como naturais e até mesmo indispensáveis as atividades ilegais, tais como violação de correspondências, grampeamento de telefones, utilização de veículos roubados, prisões abusivas e obtenção de confissões por processos condenáveis e até mesmo criminosos em dependências militares". Presenças obrigatórias nas listas de responsáveis por torturas no país, o general Fiúza de Castro e o brigadeiro Burnier admitem que tenha havido excessos na obtenção de informações de presos políticos, mas não sob seus comandos. Em depoimento, Castro declara que não é contra a prática da tortura: "Acho válida, sob certas circunstâncias, para adquirir informações". Ele nega os números apresentados pelo Grupo Tortura Nunca Mais, que acusa dois mil casos de tortura durante a ditadura militar. Segundo Castro, estes teriam sido 400. Os demais presos, segundo o general, eram "desequilibrados, com problemas familiares, que queriam se justificar com os companheiros". Castro conta ainda que os ingleses foram os maiores instrutores dos interrogadores nacionais. Eles recomendavam que os presos fossem despidos ao serem interrogados, "até por problemas de higiene". Já Burnier diz que este método não era usual, embora de acordo com a maioria dos depoimentos de presos políticos, ser despido era o primeiro e humilhante degrau na escala de degradação a que eram submetidos (O ESP).