Cerca de 65 mil metalúrgicos do ABC paulista entraram em greve ontem de manhã, depois que o governo vetou acordo celebrado entre a categoria e as montadoras prevendo a reposição da inflação nos dois meses do Plano Real, de 11,87%. Por esse acordo, os metalúrgicos receberiam a inflação do real a partir deste mês-- como abono de produtividade e não reajuste-- e as montadoras se comprometeriam a não repassar o aumento salarial para os preços dos carros. Mas o acordo também prevê que a data-base da categoria seria antecipada de abril de 1995 para novembro deste ano, o que serviria de argumento para aumento dos carros ainda este ano. Ontem à noite, o governo mandou a São Paulo seu negociador de preços, o assessor especial do Ministério da Fazenda, José Milton Dallari. Segundo os sindicalistas, Dallari teria aval do ministro Ciro Gomes para discutir a aceitação ou não do abono, mas não a mudança da data-base ou o repasse para os preços dos reajustes mensais. Logo no começo da reunião, Dallari advertiu sindicalistas e representantes das montadoras: "Se vierem aqui pedir autorização para aumentar preços, perderam tempo". Participaram da reunião Heiguiberto Navarro, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (sucessor de Vicente Paulo da Silva, Vicentinho, hoje presidente da CUT), Dallari e o representante das montadoras, Luís Adelar Scheuer. O resultado dessa nova rodada de negociações será levado à nova assembléia dos metalúrgicos hoje de manhã. Segundo o sindicato, 50% dos 140 mil metalúrgicos do ABC cruzaram os braços. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA) calcula, porém, adesão de 39% e prejuízo de US$80 milhões no primeiro dia da paralisação. Na assembléia de ontem, os sindicalistas lutaram para desvincular a greve da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência. A pedido de Vicentino, as bandeiras com o nome de Lula foram recolhidas. Navarro insistiu que a greve não é política, mas admitiu algum tipo de apoio de seu sindicato à candidatura petista. "O apoio que nosso sindicato está dando ao Lula é o mesmo que o governo Itamar dá ao Fernando Henrique Cardoso (PSDB)", disse Navarro. Ao contrário do ministro Ciro Gomes, as montadoras não consideram a greve um movimento político nem um fator de pressão sobre os preços, uma vez que, garantem, o aumento dos metalúrgicos não seria repassado. No Rio de Janeiro, o presidente Itamar Franco afirmou que vai manter a estabilização econômica do país a qualquer preço. "Não sou contra as greves. Evidentemente, desde que elas se mantenham dentro dos parâmetros democráticos. Estamos vivendo um plano de estabilização que deve ser mantido pelo interesse do país, não pelo interesse do governo ou dos trabalhadores", disse (JB) (O ESP) (FSP) (O Globo).