Multiplicam-se em número e papéis as organizações não-governamentais (ONGs) de apoio a portadores do HIV em atuação no Brasil. Tanto quanto exige a voracidade da epidemia, as ONGs desdobram-se em solidariedade, protesto, conscientização e assistência. Cumprem funções que o Estado ignora. Aprenderam-- para ensinar-- a conviver com a perda, a morte e o medo. Com algoz indestrutível, fizeram uma estranha parceria, capaz de alterar as relações sociais. A AIDS mudou, acreditam seus integrantes-- mas não sozinha. Arraigadas concepções sobre a vida e a sexualidade estão, necessariamente, por ser reprogramadas para décadas de convivência com o HIV. Reunidas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) até o último dia 10 no 4o. Encontro de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS, mais de 400 pessoas, representando 180 diferentes entidades, pararam para repensar a luta e o inimigo comum. "Hoje, as pessoas tem mais informação, mas isso não quer dizer que estejam conscientizadas. Elas têm conhecimento sobre a AIDS, mas não o aplicam", lamenta o presidente do Pela Vidda-RJ, Ronaldo Massauer, um engenheiro de 26 anos e quatro de organização. Ele conheceu o grupo através da televisão. Entre a admiração e a mobilização, perdeu um amigo e descobriu-se soropositivo. Estima-se que metade dos portadores do vírus no Brasil façam uso dos serviços prestados pelas ONGs. Eles vão em busca de assistência psicológica, jurídica, oficinas de arte, debates e até preservativos. A prioridade das ONGs, entretanto, ainda é informar. "Sem informação não se pode escolher", previne Marie Ahouanto, representante da ONG francesa ARCAT/SIDA. Mas o vento das transformações já é perceptível. "A AIDS mudou as relações sociais. Nunca antes médicos, prostitutas e homossexuais haviam sentado para discutir em conjunto um tema de tamanha importância", diz Marie. Enquanto isso, as novas gerações aprendem a lidar naturalmente com o "sexo seguro". "Na França, as pesquisas demonstram que os adolescentes recorrem ao preservativo com muito mais frequ"ência do que os adultos", conta (JB).