A falta de definição nos rumos da política agrícola brasileira adia o combate a problemas que há muito pedem solução: o Brasil, país de dimensões continentais e milhões de hectares de terras férteis, produz infinitamente aquém de sua capacidade; não combate com eficiência os atravessadores; tem graves problemas de distribuição e pouco estimula os pequenos produtores. Para piorar, o governo fecha os olhos ao desrespeito à legislação trabalhista no interior-- onde milhares de pessoas, inclusive crianças menores de 10 anos, trabalham mais de 14 horas por dia, em condições desumanas. Especialistas garantem ser necessário rever o sistema de crédito rural, estimular a produção para o consumo interno, combater a sonegação fiscal de grandes proprietários de terra, investir nos pequenos produtores e levar adiante a reforma agrária. O professor de Economia Agrícola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Roberto Novaes, garante ser um descuido analisar o problema agrícola sem buscar as razões da atual situação na estrutura econômica do país. Segundo ele, nosso modelo econômico é excludente e precisa ser revisto. "Não podemos nos esquecer de que há hoje no Brasil 30 milhões de pessoas vivendo abaixo da miséria. Diante disso, o crédito rural é algo apenas paliativo. O governo precisa, antes de tudo, tentar inserir essas pessoas no mercado. Sem políticas de recuperação do grande contingente de marginais existentes hoje, não há como estimular uma agricultura voltada para o mercado interno", diz. Para ele, o governo deveria incentivar a produção em grande escala dos alimentos da cesta básica. "É preciso haver uma conjugação entre lucro e objetivos sociais da agricultura. O produtor precisa auferir lucros para si, mas o governo não pode deixar de implementar políticas de abastecimento interno para as populações de baixa renda", afirma. Os especialistas em Economia Agrícola José Roberto Novaes, da UFRJ, e José Maria Cyhlar, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ressaltam a importância do aproveitamento das terras improdutivas. Ambos afirmam, no entanto, que sem uma política de emprego e a ampliação do mercado interno, a reforma agrária corre sérios riscos de ser um fracasso. "É uma questão delicada. O governo precisa analisar caso a caso e ter o cuidado de mandar para a terra somente pessoas que estejam em condições de manuseá-la com alto grau de aproveitamento. Também não adianta redistribuir terra sem dar treinamento e suporte a quem se propuser a trabalhar no campo", friza José Maria Cyhlar. A reforma agrária e os projetos de irrigação, segundo José Roberto Novaes, devem fazer parte de uma política agrícola que não tenha como único objetivo a densidade do lucro. Na sua opinião, o Estado precisaria conciliar o lucro dos grandes agricultores com projetos voltados para uma distribuição de renda mais digna (JC).