A Conferência da ONU sobre População e Desenvolvimento, que se realiza no Cairo (Egito), além de discutir as linhas gerais de políticas de controle populacional, tem que enfrentar também o outro lado da questão: programs precisam de dinheiro. Quem vai pagar a conta do que for decidido no Cairo? A União Européia anunciou que está disposta a aumentar a ajuda financeira enviada aos países em desenvolvimento, mas impõe uma condição: os países beneficiados terão que fazer bom uso deste dinheiro, dando mais atenção e recursos aos problemas de população. O diretor- gerente do FMI, Michel Camdessus, também se pronunciou, buscando a solução numa diminuição do protecionismo. Ma para a pesquisadora do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), Sônia Corrêa, o problema da distribuição dos recursos e da eficiente aplicação dos programas não se limita à quantidade de dinheiro enviada pelos países ricos, ou ao aumento das exportações provenientes do Sul. Segundo ela, nos últimos anos, montou-se o chamado "population establishment"-- uma rede complexa de organizações internacionais influentes que aplicam métodos contraceptivos. Estas organizações não estariam dispostas a ter seus recursos transferidos em nome de outro tipo de filosofia populacional. "O documento do Cairo promove serviços de saúde reprodutiva muito mais amplos, com apoio ao parto, ao pré-natal. O dinheiro será aplicado neste sentido, em hospitais públicos, e não ficará mais só com o population establishment, que disseminava métodos contraceptivos, e só. Eles não querem perder os recursos neste debate", explica Sônia. Taís Corral, membro da Women Environment and Development Organization, critica uma certa hipocrisia das organizações internacionais: "Há uma contradição entre as políticas de ajuste estrutural impostas pelo FMI ou pelo Banco Mundial, que determina que os países pobres cortem verbas de saúde pública, e seu discurso. Eles impõem estas políticas aos mesmos países que eles acusam de crescer muito", diz Taís (JB).