Fulminado pelas confissões de apoio à candidatura de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) à Presidência, Rubens Ricúpero pediu ontem demissão do cargo de ministro da Fazenda. Ele entregou a carta de demissão no final da manhã de ontem ao presidente Itamar Franco, depois de breve reunião com seus assessores mais próximos, em sua casa. Itamar já havia emitido sinais de que gostaria que essa fosse a iniciativa de Ricúpero. "O presidente ficou perplexo e mal impressionado com o Ricúpero que viu nos jornais", sintetizou um ministro. O pedido de demissão de Ricúpero encontrou sintonia também no comando político da campanha de Cardoso que, bem antes de formalizada a decisão do ministro, deixava claro que o prejuízo de sua permanência seria ainda maior que o estrago provocado pela gravação indiscreta. A seguir, alguns trechos da conversa entre Ricúpero e o jornalista Carlos Monforte, na noite do último dia 1o., e que foram captadas por antenas parabólicas: -- "Para mostrar absoluta isenção, eu dou um cacete neles (no PSDB). Toda vez que tiver um troço desses eu dou um cacete, porque senão ficam questionando a minha isenção. A única forma que eu posso provar o meu distanciamento político do PSDB à criticar o PSDB". -- "Sem ser preseunçoso, ele (FHC) precisa mais de mim do que eu dele. Muitas das pessoas que me escrevem estão dizendo que vão votar nele por causa disso. Aliás, ele sabe disso, o grande eleitor dele hoje sou eu. Por exemplo, para a Rede Globo foi um achado. Porque ela em vez de terem que dar apoio ostensivo a ele botam a mim no ar e ninguém pode dizer nada. Agora o PT está crescendo, mas não pode porque eu estou o tempo todo no ar. Eu ouço muita gente dizer que não votaria nele por causa do PFL. Vai votar por causa de mim". -- "Eu te dou primazia (na divulgação da prévia do IPC-r de setembro). Tenho que conversar com eles senão eles me matam. Esse pessoal tem toda aquela corporação de economistas. É um troço complicado. Depois vão dizer, pô, você proibiu da vez anterior que era ruim, agora que é bom. E no fundo é isso mesmo". O vice-presidente-executivo da TV Globo, Roberto Irineu Marinho, considerou ontem "lamentável a postura do ministro Rubens Ricúpero, mesmo em conversa privada, ao interpretar que a emissora tenha desejo ou intenção de fazer campanha para qualquer candidato à Presidência em sua programação". Para ele, o ministro cometeu "um grande equívoco" ao misturar o apoio da emissora ao Plano Real a uma das candidaturas, pois "o objetivo da Globo ao divulgar o real foi no sentido de que a estabilidade econômica seja atingida". A repercussão da fala do ex-ministro entre os principais candidatos à Presidência é a seguinte: Leonel Brizola (PDT)-- "A Justiça Eleitoral tem obrigação de recolher a fita e fazer uma análise da conversa. Isso vem comprovar, em um episódio que saiu fora do controle, que a Globo está intimamente ligada ao processo que se desenvolve em torno da candidatura de Fernando Henrique". Orestes Quércia (PMDB)-- "As declarações mostram que o governo estava mal-intencionado, e o candidato era mal-intencionado". Luiz Inácio Lula da Silva (PT)-- "O ministro, que parecia tão cristão, tão bonzinho, de repente, tem a petulância de dizer que só mostra as coisas boas e as coisas ruins ele esconde. Imagino como não deve proceder um candidato ateu" (O ESP) (FSP).