O mundo não pode mais discutir seu futuro segundo o velho ditado que diz que "lugar de mulher é em casa". Os homens do planeta têm agora que dividir o espaço da rua com suas companheiras de leito. E mesmo países conservadores estão sendo obrigados a aceitar esta nova divisão dos sexos: o Egito muçulmano receberá, durante a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, na próxima semana, um poderoso lobby de mulheres esclarecidas, que esperam poder fazer valer a idéia de que o planeta onde vivemos está em biológica relação com a espécie feminina. Falar de crescimento populacional é falar de suas condições de vida. A inflexão do debate no Cairo é o resultado do movimento das mulheres, afirma Sônia Corrêa, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE). Taís Corral, membro da "Women`s Environement and Development Organisation" (WEDO), chega dia três no Cairo para defender o mesmo programa: "A matriz demográfica, que inspirou as políticas de controle populacional, não dá conta dos problemas que os povos enfrentam hoje. O movimento das mulheres deu um espectro mais amplo à discussão. A questão do crescimento populacional faz parte de um pacote", diz. O "pacote" é o abandono de uma visão matemática do crescimento populacional-- que preconizava métodos de contracepção com o único objetivo da redução demográfica-- em favor de ações mais amplas, que preocupam-se com os processos sociais do crescimento da população e da distribuição da riqueza. Da complexidade destes processos é que surge a importância do papel da mulher dentro da discussão demográfica. "O que importa são as relações entre homens e mulheres, que está na origem de qualquer nascimento. Em vários países do mundo as mulheres têm mais filhos do que desejariam ter", explica Sônia. "O acesso aos meios contraceptivos é apenas um fator que explica as taxas de fecundidade", diz. A reivindicação de mais autonomia no planejamento familiar e em todas as esferas da vida, segundo Sônia, não é apenas um discurso das mulheres dos países desenvolvidos. "As próprias mulheres dos países que acusam a Conferência de ir contra suas culturas são explícitas em dizer que nada justifica o abuso dos direitos das mulheres". O abuso dos direitos femininos vem, por exemplo, na forma da imposição de políticas de controle demográfico sem acompanhamento. É por isso que se reivindica a melhoria dos serviços de saúde pública e de educação. Para Taís, até agora se tratou as mulheres como números. É hora de entender que o crescimento populacional está inserido no contexto do desenvolvimento. E que sem que as mulheres possam escolher seu destino, o mundo irá mal (JB).