Em vez de cânticos e orações, rajadas de metralhadoras e lágrimas de pavor. Era o primeiro minuto de ontem e quase 100 pessoas se preparavam para iniciar vigília em memória das 21 pessoas chacinadas há um ano na favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro (capital). A reunião era na Casa da Paz-- antiga residência da família de oito evangélicos assassinada enquanto dormia, agora centro cultural. Entrava em cena uma tropa de cerca de 20 policiais do 9o. Batalhão da Polícia Militar (Rocha Miranda). As preces cessaram e todos se esconderam sob mesas e cadeiras. O tiroteio com traficantes do bando de "Flávio Negão" levou uma hora e meia de pânico a quem só queria a paz. Foi preciso que integrantes do Movimento Viva Rio, que apoiaram a criação da Casa da Paz telefonassem para o governador Nilo Batista (PDT) e para o comandante da PM, coronel Carlos Magno Cerqueira, para pedir que eles ordenassem a retirada da tropa. "Esse desastre faz parte de um processo de intimidação contra os eventos programados para lembrar um ano da chacina", afirmou o sociólogo Caio Ferraz, morador de Vigário Geral e coordenador do projeto cultural da Casa. Segundo ele, há oito dias a polícia tem entrado lá para "passear" pelas vielas. Eventualmente, há trocas de tiros. Numa delas, morreu com uma bala perdida o aposentado José do Coco, de 77 anos. O 9o. BPM informou que três patrulhas passavam próximo à favela, quando foram atingidos por disparos dos traficantes, que estariam na passarela sobre a linha férrea, o que motivou o confronto. "Não acredito. Os traficantes estavam no local onde costumam ficar, dentro da favela. Os PMs entraram pela localidade chamada Brasília, perto da estação, a mais escura daqui e onde não há movimento de drogas", contou Caio (O Dia).