O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, anda apreensivo, e não é com o saldo, considerado positivo, da campanha Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, que já envolveu mais de 26 milhões de pessoas no país. A condução dessa causa pelo futuro presidente o inqueita e o faz criticar os dois principais candidatos ao cargo, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A 40 dias das eleições, ele lamenta a falta de programa objetivo dos candidatos para atacar a fome e a miséria. "Eles estão tentando ainda quantificar o problema quando precisamos de detalhamento dos compromissos públicos do futuro presidente com a sociedade", afirma. Betinho sugere que os dois candidatos assinem um documento mostrando como pretendem agir quando estiverem no poder. "Sem isso, como vamos cobrá-los?" Bem-humorado, brinca com o repórter Marco Uchõa: "As propostas atuais parecem uma boca sem dentes, daquelas sem condições de morder nada". O ESP- As propostas dos candidatos são consistentes? BETINHO- Propor a criação de empregos é interessante, um caminho para atacar a miséria. Com novos empregos, acontecerá uma mudança na política econômica, com retomada da produção. Mas, como o futuro presidente usará o Orçamento para criar empregos? Como mobilizará o sistema financeiro público, o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal? Como fazer com que as universidades federais parem para pensar em tecnologias com essa finalidade? Gostaria que eles assinassem um documento, antes das eleições, com suas propostas. Assim, a sociedade poderá cobrá- los após a posse. Sem um documento escrito estaremos perdendo a chance de mudar esse quadro. Não podemos ficar só no aspecto genérico. O ESP- Como o novo presidente deveria agir? BETINHO- Em primeiro lugar, declarar o combate a miséria como primeira prioridade no ranking do novo governo. Fazer com esse assunto seja motivo para uma ação conjunta de todos os ministérios. No começo da campanha, por exemplo, alguns ministérios não conseguiam como se enquadrar, como colaborar. Caso do Ministério da Justiça. Uma luta deste porte, precisa ter a liderança do presidente. Não pode ser tarefa isolada de alguma equipe. Ele tem que fazer isso pelo telefone, o dia inteiro se necessário. Sair por aí mobilizando a sociedade. O governo precisa ter estratégias para criar empregos e poderia realizá-las com os municípios, que são bons geradores de emprego. O ESP- Qual a diferença do discurso de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao assunto? BETINHO- A semelhança está na proposta de gerar empregos, mas nas duas impera o alto nível de generalidade. Eu queria alguém com firmeza suficiente para dizer o que fará na prática. Alguma coisa objetiva e que as pessoas pudessem ficar atentas para acompanhar o procedimento. Será que Fernando Henrique conseguirá prevalecer suas idéias sobre a aliança que constituiu? O PFL nunca foi de luta contra a fome. O que preocupa no PT é o contrário, ou seja, a falta de alianças. Será que Lula tem condições de mobilizar todos os setores da sociedade para essa causa? O ESP- Qual orientação aos miseráveis no momento de votar? BETINHO- Usar o voto com o máximo de consciência. O ideal seria essas pessoas produzirem uma espécie de clamor público de que a miséria é intolerável. Fazer o máximo de barulho cívico para que os candidatos percebam que o combate a esse quadro não é uma causa genérica, mas uma necessidade inadiável e urgente (O ESP).