Nos últimos 11 anos, aumentou em 2 milhões o número de crianças e adolescentes (de 0 a 17 anos) no Brasil que vivem em domicílios chefiados por pessoas que ganham até dois salários-mínimos (considerados em situação de pobreza). Em 1980, este número era de 30 milhões de pessoas e chegou a 32 milhões em 1991. Um crescimento de 6,7%. As informações são de Ana Lucia Saboia, do departamento de indicadores do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O instituto divulgou ontem, no Rio de Janeiro, os indicadores sociodemógraficos de crianças e adolescentes pesquisadas no censo de 1991. Durante a divulgação, estiveram presentes o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom Luciano Mendes de Almeida, e Herbert de Souza, o Betinho, coordenador da campanha Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida. Segundo os dados do censo de 1991, em 1980 o país tinha 53,93 milhões de crianças e adolescentes. Este número passou para 59,93 milhões em 1991. Um crescimento de 11%. A cidade recorde é Santana dos Garrotes, na Paraíba, com 98,4% de crianças pobres, segundo os padrões do IBGE. Dos dez municípios mais populosos do país, Fortaleza é o que tem mais crianças até 6 anos nestas condições: 64%. A segunda cidade do país-- entre as que têm mais de 1 milhão de habitantes-- que tem mais crianças até 6 anos com os chefes de família ganhando até dois mínimos é Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, com 58,4%. Entre as maiores cidades, São Paulo é a que tem menor percentual de crianças pobres: 20,9% das crianças até seis anos vivem em casas onde os chefes de família ganham até dois salários-mínimos. Dos quase 5.000 municípios existentes no país por ocasião do censo de 1991, em 4.079 deles mais da metade das famílias têm o chefe ganhando até dois salários-mínimos. Há municípios onde menos de 2% da população ganha mais de dois mínimos. É o caso de São João dos Tigres (Maranhão), Graça (Ceará), Icatu, Nina e Cajapió (Maranhão). Todos eles têm menos de 20 mil habitantes. O censo de 1991 também detectou que em 26 municípios do país menos de 3% das crianças vivem em domicílios que se encontram fora da situação de pobreza. De 1980 a 1991, a população cresceu 1,95%. O crescimento do número de crianças de até 6 anos foi de 0,35%. São Paulo é o estado que tem melhores condições de vida para as crianças e adolescentes, segundo a pesquisa do IBGE. Oito cidades paulistas são as únicas que têm menos de 20% da população ganhando menos de dois salários-mínimos. São Caetano do Sul, com 149,5 mil habitantes, é a cidade brasileira que tem a menor taxa de analfabetismo. Apenas 1% das crianças entre 11 e 14 anos não sabe ler e escrever. Também em relação aos domicílios com abastecimento de água e esgoto sanitário inadequados, São Caetano do Sul é um bom exemplo brasileiro. Só 0,2% não tem água tratada e 0,3% não tem esgoto adequado. Das oito cidades, cinco delas têm menos de 2% de analfabetos na população entre 11 e 14 anos. São elas: São Bernardo do Campo (1,8%), Santo André (1,6%), Americana (1,5%), Iracemapolis (1,3%) e Santos (1,5%). A capital paulista tem, entre os municípios com mais de 1 milhão de habitantes, o menor percentual de crianças até 6 anos que moram em domicílios com chefe que ganha até dois salários-mínimos: 20,9%. A cidade tem a segunda melhor taxa de analfabetismo para crianças de 11 a 14 anos (2,4%). Se no indicador geral de pobreza a situação do país piorou em relação a 1980, na alfabetização das crianças e adolescentes a situação no país está melhor. Segundo Ana Lucia Saboia, do Departamento de Indicadores Sociais do IBGE, 20% das crianças entre 11 e 14 anos não sabiam ler nem escrever em 1980. Este número caiu para 16% em 1991. A opção por essa faixa etária para a pesquisa sobre analfabetismo foi feita porque se pressupõe que nessa idade a criança já esteja alfabetizada. Em seis municípios brasileiros não existem analfabetos entre crianças e adolescentes de 11 e 14 anos. Cinco deles são gaúchos (Poços das Antas, Victor Graessi, Vila Flores, Guabiju e Montauri) e um paulista (Santo Expedito). No Estado do Amazonas estão os dois municípios com maior percentual de analfabetos do país. São eles Pauini, com 85,1% e Itamarati, com 79,5%. Os dados de Belém ainda não foram tabulados pelo IBGE. Os dados mostram que a situação da educação nos municípios maiores é a mesma há gerações. Todos aqueles que têm alto percentual de analfabetos apresentam famílias cujos pais possuem, no máximo, um ano de instrução. É o caso de Pauini, que tem 84,7% de chefes de família com menos de um ano de estudo. Entre os municípios com mais de 1 milhão de habitantes, Fortaleza é o que tem mais analfabetos na faixa etária pesquisada: 13%. Logo depois vem Recife, com 12,7%. Curitiba, entre as cidades grandes, é a que tem menos analfabetos: 1,7%. Água e esgoto também são problemas sérios nas regiões mais pobres. Há cidades que, pelo critério do IBGE, não têm o único domicílio em condições adequadas de esgoto e água tratada. É o caso de Quixaba, na Paraíba. Nos municípios com mais de um milhão de habitantes, a pior situação em termos de saneamento básico é de Fortaleza, com 87,2% das crianças até 6 anos vivendo nestas condições. A melhor situação é do Rio de Janeiro, com apenas 14,1% das crianças vivendo sob estas circunstâncias. O presidente da CNBB, dom Luciano Mendes de Almeida, saudou a pesquisa do IBGE mas cobrou ação dos órgãos governamentais. "Não podemos só ficar alegres com o que se obteve, mas influir para que esse intrumento seja utilizado com inteligência", disse. O bispo de Mariana, em Minas Gerais, pediu os dados de seu estado pois, "se soubermos quais são os locais que mais necessitam de ajuda podemos concentrar lá o nosso trabalho". O IBGE, que fez a pesquisa com patrocínio do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Criança e o Adolescentes), divulgou os dados para os governadores, secretários de Planejamento e prefeitos. Herbert de Souza, o Betinho, coordenador da campanha Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, disse que o estudo é "um passo extremamente importante na mobilização que estamos fazendo". Para Betinho, a divisão por regiões e municípios é boa pois "divide o problema". Em seu entendimento, "quando se mostra um número brutal você desamina" (FSP) (O ESP).