O Vaticano disse ontem que a conferência da ONU sobre população e desenvolvimento terminará sem consenso se não forem feitas mudanças no texto a ser discutido. O Vaticano, que tem assento na conferência a se realizar no Cairo (Egito) de cinco a 13 de setembro, é contra trechos do texto preparatório que falam em aborto e métodos anticoncepcionais. "Se é para chegar a um consenso no Cairo, que é o que se espera, certas posições têm de ser mudadas em relação à consideração do aborto como meio de planejamento familiar", disse o porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Vals. A conferência do Cairo visa delinear um plano de 20 anos para a estabilização da população mundial, quadruplicando o dinheiro dado a nações pobres para planejamento familiar, assistência médica e educação para meninas. A Igreja Católica acusa os EUA de usar seu poderio econômico para forçar a adoção do aborto para controle populacional. A posição do Brasil na conferência será baseada na legislação do país: o aborto é aceito em casos de gravidez decorrente de estupro e risco para a vida da mãe. Segundo Elza Berquó, pesquisadora da Comissão de Cidadania e Reprodução do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), o Brasil vai defender um conceito amplo de saúde reprodutiva. Aí é que se enquadrariam os métodos contraceptivos, entendidos como direitos dos cidadãos e não apenas como técnicas de controle populacional. Outro ponto polêmico na conferência do Cairo será sobre o problema da migração. Os países desenvolvidos querem mudar o conceito da reunificação familiar, que tradicionalmente norteia a política de migração da maioria dos países. De acordo com esse conceito, um indivíduo que migra legalmente para um determinado país tem o direito de trazer seus parentes. O G-7-- grupo dos sete países mais ricos do mundo-- quer derrubar esse ponto do documento final da conferência, com o objetivo de controlar a entrada dos imigrantes. A Associação Brasileira de Estudos Populacionais encomendou recentemente uma pesquisa de opinião a um instituto paulista, para aferir o interesse dos brasileiros nos assuntos que serão discutidos no Cairo. Constatou-se que 78% da população não sabiam da existência da reunião (FSP) (JB).