A mais nova comunidade de imigrantes de São Paulo é formada por centenas de índios que moram em favelas e que trabalham na construção civil. Eles são do grupo pancararu e viajaram cerca de 2.200 quilômetros em busca de emprego e de comida. Afirmam que foram expulsos de suas aldeias, em Pernambuco, por posseiros. Em São Paulo, os índios se concentram nas favelas Real Park e Paraisópolis, no Morumbi. Segundo Fernando Monteiro dos Santos, de 25 anos, líder da comunidade indígena na favela Real Park, cerca de 1.500 pancararus moram na cidade. Em 1990, diz Santos, eram cerca de 150. A Fundação Nacional do Índio (FUNAI) considera esses números exagerados, mas reconhece que uma comunidade de pancararus se instalou em São Paulo. Segundo a FUNAI, os pancararus são os primeiros indígenas a migrarem em massa para São Paulo. Até então, os únicos índios da cidade eram os garanis, organizados em uma aldeia com 250 pessoas em Parelheiros (zona sul). Em 1989, 3.676 pancararus viviam na reserva em Pernambuco, segundo censo da FUNAI. Os pancararus são, oficialmente, donos de uma reserva em Pernambuco com 8.100 hectares. Mas cerca de dois terços de suas terras estão ocupadas por 400 famílias de trabalhadores rurais. "Há mais de 200 anos as famílias moram lá", diz Januário Moreira da Silva Neto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Petrolândia, filiado à Central Única dos Trabalhadores (CUT). O conflito entre posseiros e índios está sob vigilância da Polícia Federal, que ocupa a reserva. O Ministério Público da União move ação para retirar os trabalhadores. "Se a FUNAI arrumar outra área para os posseiros, a gente segue a determinação", afirma Silva Neto. A reserva dos pancararus foi demarcada em 1987, por decreto do então presidente José Sarney. O decreto aumentou a tensão na reserva. Um índio foi morto e os posseiros decidiram só deixar a área após receberem novas terras. A reserva fica na divisa de Pernambuco com Bahia, nos municípios de Petrolândia e Tacaratu. A violência das favelas paulistanas já matou mais pancararus do que o conflito de terra. Cinco já morreram na cidade, segundo Fernando Monteiro dos Santos. A última vítima foi Jair Selestino de Barros, de 20 anos, assassinado no último dia 24, na favela do Real Park (FSP).