Em 85% dos crimes cometidos por menores-- as principais infrações registradas no Juizado de Menores são de roubos e furtos--, há um adulto envolvido. A estimativa é do juiz da 2a. Vara de Menores, Siro Darlan, que defende o combate à criminalidade adulta e à corrupção de menores. Grande parte das histórias contadas pelos adolescentes infratores vincula
81671 à existência de um adulto, afirma o juiz, acrescentando que ""a omissão, tanto da sociedade quanto da administração pública na busca de soluções é grande". "Sempre encaminho as informações fornecidas pelos adolescentes à Polícia e ao Ministério Público, mas nunca recebi retordo do que foi feito", queixa-se. Além de agir como receptador do que é furtado ou roubado por um menor-- geralmente o infrator já tem um "comprador" fixo-- o adulto, principalmente os traficantes, utiliza-se de crianças e adolescentes por dois motivos: são mão-de-obra barata e, independentemente do crime que cometeram, não estão sujeitos ao mesmo tipo de punição prevista para os maiores de 18 anos-- conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente, são internados, ou seja, privados da liberdade, por um prazo máximo de três anos. Para o juiz Siro Darlan, o poder e o dinheiro fácil do tráfico de drogas são hoje os grandes atrativos para os jovens carentes que todos os dias chegam ao Juizado de Menores. Segundo ele, esses menores podem ganhar quatro ou cinco vezes o salário dos pais como "soldados" nas bocas-de- fumo. Segundo o juiz, os principais fatores que levam a maioria desses jovens a se aliar ao crime são a miséria e a falta de infra-estrutura familiar. As crianças são usadas como mão-de-obra por criminosos adultos. A condição de menores acaba livrando os adolescentes da prisão. Apesar desse quadro, o juiz vê com otimismo algumas ações realizadas em prol desses jovens desde a adoção do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990. "Antigamente, o menor era tratado como coisa, encarcerado em grandes escolas e misturado aos criminosos, por isso os números exagerados de infratores", diz. "Hoje, ele recebe um tratamento diferenciado e, como cidadão, tem direito a defesa; dependendo da infração, só pode ficar preso por até três anos". Quando o juiz assumiu a 2a. Vara da Infância e da Juventude, em junho de 1991, a média mensal de infratores encaminhados ao juizado girava em torno de 350. Em junho deste ano, esse número havia caído para 180. Segundo o juiz, cerca de 70% desses jovens estão sendo recuperados, num trabalho conjunto do juizado, professores e das famílias dos infratores (O Dia) (O ESP).