O Haiti decretou estado de sítio ontem em reação à aprovação pelo Conselho de Segurança da ONU "de todos os meios necessários" para derrubar o governo militar do país. "O Haiti está preparado para a luta", disse o presidente Emile Jonassaint em discurso pela rádio e TV estatais anunciando a medida. É a primeira vez que a ONU aprova uma intervenção nas Américas. Os EUA têm 2.400 soldados e 14 navios de guerra próximos do Haiti preparados para uma invasão. O Brasil foi alvo de pressão por ter-se abstido de votar na sessão do Conselho de Segurança que aprovou a intervenção no Haiti. Apesar de condenar claramente a intervenção em sua exposição de motivos, o embaixador Ronaldo Sardenberg, representante do país na ONU, não votou contra. Segundo as informações, funcionários norte-americanos se dirigiram à missão brasileira na ONU depois da decisão querendo saber o que havia acontecido para que o Brasil ficasse contra os EUA. A opção de se abster, ao invés de votar diretamente contra, foi tomada para evitar uma posição de confronto. "Nós não votamos contra porque não queríamos fazer parecer que o Brasil não tinha interesse em auxiliar o povo haitiano", declarou a conselheira Maria Estela Frota, do Ministério das Relações Exteriores. A diplomacia brasileir avaliou que podia haver outras formas de auxílio que não a intervenção militar direta. O Itamaraty criticou duramente ontem a resolução da ONU de autorizar a intervenção no Haiti. O chefe do Departamento de Organismos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores, ministro José Maurício Bustani, comparou a resolução a um "cheque em branco" dado a uma coalizão de países, encabeçada pelos EUA. O ministro, responsável pelo encaminhamento das orientações do governo à representação brasileira na ONU, avalia que a resolução foi mal feita e, por isso, haverá problemas graves para sua implementação. "Há um grande risco. Não se sabe até quando as forças permanecerão no país, nem os impactos sobre a população", criticou o ministro (FSP) (O Globo).