RELIGIOSAS BRASILEIRAS AMEAÇADAS DE MORTE

A crise no Haiti deve assumir contornos mais concretos para o Brasil com a chegada a Porto Príncipe, esperada para hoje, de três religiosas brasileiras que estão ameaçadas de morte. A irmã Santina Perín, que deixou o país no último dia 21 num barco de refugiados, num gesto de solidariedade calculado para chamar atenção para a tragédia dos haitianos, deve ser devolvida hoje a Porto Príncipe pela guarda costeira dos EUA, junto com os refugiados que tiveram asilo recusado pelos norte- americanos na base de Guantánamo. Também hoje devem chegar à capital haitiana, de barco, duas outras freiras da Comunidade do Imaculado Coração de Maria, a mesma ordem de Santina, que em 1988 estabeleceu uma missão em Jeremie, um porto perdido no sul do Haiti, atingível apenas por mar. Na semana passada elas entraram em contato com a embaixada, informaram que estavam recebendo ameaças de morte cada vez mais frequ"entes e pediram proteção. Trata-se das irmãs Davina da Paz Cardoso, gaúcha de Torres, de 56 anos, fundadora da missão, e Beatriz Lazzaron, também gaúcha, de Lageado, de 40 anos, há cinco no Haiti. O problema das freiras ocorre num momento particularmente delicado para o governo brasileiro. Os EUA têm feito de tudo para envolver o Brasil na duvidosa operação diplomática e militar que está montando para tentar extrair-se do beco sem saída em que se meteu graças à desastrosa política de hesitações do governo Clinton no Haiti. Ontem, aliás, foi o 79o. aniversário da primeira invasão norte-americana no Haiti. Voltar para o Haiti e ficar com os haitianos é exatamente o que a irmã Santina Perín disse querer em entrevista telefônica concedida à TV Globo, depois que foi resgatada no mar e levada para Guantánamo, Gaúcha de Maraú, Santina tem 52 anos. O problema para ela é que seu gesto transformou-se num alvo óbvio da ditadura haitiana. "Vários retornados já apareceram mortos e ela correrá risco no momento em que pisar de novo no Haiti", informou uma fonte diplomática. Muitos dos refugiados devolvidos pelos EUA são presos ao chegar. A imprensa não tem acesso ao cais e os poucos diplomatas que mantêm a presença de seus países em Porto Príncipe, em condições políticas e materiais as mais precárias, pouco puderam fazer até agora para proteger os que voltaram (O ESP).