O coordenador da campanha Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, recebeu ontem o Mapa da Fome Indígena no Brasil, que revela que 28,27% dos índios pesquisados no país passam fome. Segundo o levantamento feito pelo Instituto de Estudos Sócio- Econômicos (Inesc), 76.272 índios têm dificuldades de manter um padrão mínimo de alimentação e de saúde. A situação mais grave ocorre no Nordeste, onde 83,91% dos índios não têm o suficiente para comer. O Mapa da Fome entre os índios foi elaborado com base em informações colhidas junto a 128 áreas indígenas do país e quase 130 mil índios. As situações mais críticas foram encontradas junto às populações que habitam a região Nordeste e os estados do Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No Nordeste, de uma população total de 47.824 indígenas, 40.130 não conseguem se alimentar satisfatoriamente. No Centro-Sul, o percentual da fome é de 59,60%. Segundo o coordenador da pesquisa, o antropólogo Ricardo Verdum, 48,8% da população indígena incluída na "faixa da fome" habitam áreas que já tiveram a demarcação homologada pelo governo. Muitos estão desassistidos. No Mato Grosso do Sul, quase 19 mil índios não têm alimento em quantidade suficiente. O estudo revela que a redução das terras indígenas da região, os desmatamentos e a poluição dos rios estão deixando os índios sem alimentos e sem trabalho. Muitos deles estão submetidos ao trabalho escravo em usinas e carvoarias para escapar da miséria. "A simples garantia formal jurídico-administrativa de uma parcela do território aos índios não é suficiente para garantir a eles sua segurança alimentar", critica Verdum. O resultado da pesquisa será apresentado hoje na I Conferência Nacional de Segurança Alimentar, que se realiza em Brasília (DF), com a participação de dois mil delegados de todo o país (O Globo).