O gradativo aumento das margens de preferência entre os produtos dos países do Cone Sul, além da diminuição da burocracia que culminará com a implantação oficial do MERCOSUL em 1o. de janeiro de 1995, já está prejudicando a agricultura brasileira. A opinião é do professor e membro da Academia Brasileira de Ciência, Ady Raul da Silva, que destaca que apenas nos últimos cinco anos a produção de trigo do país diminuiu 75%, em função das importações da Argentina. O especialista acredita que a tendência é que o volume caia além dos dois milhões de toneladas atuais produzidos pelo Brasil, número que já alcançou seis milhões de toneladas em 1989. O professor acredita que as plantações de malte, cevada e arroz também devam diminuir a partir da implantação oficial do MERCOSUL. Ady da Silva atribui aos negociadores do governo as principais dificuldades da agricultura brasileira, mas destaca que Argentina e Uruguai se beneficiam com condições ideais, como o clima temperado, para a cultura de trigo, hortigranjeiros e frutas. O Brasil importa da Argentina principalmente produtos de origem vegetal, entre os quais das indústrias de moagem, cereais, frutas e produtos hortículas, além de comprar um grande volume de material de transporte, como partes de automóveis e peças. Do Paraguai, o Brasil importa basicamente produtos de origem vegetal, como sementes e frutos, oleaginosas, materiais têxteis como algodão (fibras, fios e tecidos) e vestuário (exceto malha), além de gorduras e óleos animais e vegetais. Do Uruguai, o Brasil compra principalmente produtos de origem vegetal, como cereais e da indústria de moagem, e animais vivos e produtos de origem animal, como leite e derivados, peixes e crustáceos, carnes e miudezas comestíveis, além de produtos das indústrias químicas. O professor acredita que uma das principais desvantagens seja a tributação da agricultura, que é mais elevada no Brasil que nos demais países do Cone Sul. Ady da Silva cita o exemplo do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), que incide apenas na agricultura brasileira. A partir da entrada em vigor do real, moeda forte e valorizada, o professor destaca que a defasagem cambial tende a diminuir entre Brasil e Argentina, com isso aumentando a concorrência e a importação de produtos agrícolas. Ady da Silva defende a taxação dos produtos argentinos quando entrarem no Brasil e critica a política de preço mínimo do governo (JC).