CRIANÇAS LOTEIAM AS RUAS DO RIO DE JANEIRO

A cidade do Rio de Janeiro (capital) foi loteada pelas crianças e adolescentes que vivem nas ruas. A rivalidade entre elas chegou ao ponto de estarem organizadas como gangues que defendem com unhas e dentes territórios e hábitos. Como os que vivem no subúrbio preferem pedir mais a roubar, são classificados pelos garotos da zona sul e do centro como mendigos de rua. "Nosso negócio aqui é roubar para fumar e cheirar. Somos os bandidos. O pessoal de Madureira e Marechal Hermes é mendigo de rua", explicou A.S.P., o "Porquinho", um dos poucos que ainda consegue viver na Candelária, o território mais disputado entre as gangues. A chacina da Candelária, em 23 de julho do ano passado, foi o marco da ruptura e da rivalidade entre os meninos. "A gente morava na Candelária, mas havia um pessoal muito violento. As pessoas que não se adaptavam saíram de lá, como nós", contou V.D.A., de 22 anos, de Madureira. Apesar de maior, ele pediu para não ser identificado com medo de represálias dos rivais. Ainda consigo conversar com os garotos das outras gangues. Mas a coisa
81249 tá"" feia. Tem menino matando menino. Continua valendo a lei do mais forte", denunciou V.D.A, que lidera o grupo de 68 crianças e adolescentes que dorme sob o Viaduto Negrão de Lima, em Madureira. Segundo ele, os meninos da área do centro (Candelária e Cinelândia) são mais violentos do que os do subúrbio (Madureira, Marechal Hermes, Méier, Vila Valqueire e Cascadura). A divisão geográfica da cidade e a diferença dos hábitos dos meninos também foram identificados pela educadora e coordenadora do Projeto Espaço Flor do Amanhã, Lígia Costa Leite. "Até a forma deles cuidarem dos filhos que nascem na rua é diferente. As meninas de Madureira, por exemplo, são bastante carinhosas com os filhos", exemplificou (JB).