JOVENS ATORES NAS FAVELAS DO RIO DE JANEIRO

O céu é o limite da arte e da vida real para os artistas que moram onde o povo está. Bem no alto dos morros, entalados em ruas estreitas e desalinhadas e contando com a cenografia caótica dos barracos mal rejuntados de alvenaria, jovens atores que moram nas favelas do Rio de Janeiro (capital) se exercitam diariamente em um palco erguido sobre sucatas e iluminado por uma ribalta feita de latinhas velhas. O que falta em carpintaria teatral sobra em engenharia de improviso. Provando que os sonhos e o talento jamais serão favelizados, meninas e meninos da Rocinha e do Vidigal ensaiam o primeiro ato da profissionalização do teatro popular e até já cobram ingressos em bilheterias mambembes que, com certeza, não constam do mapa do circuito cultural. Para eles, é como encarnar de novo a trupe de Molie`re, convencidos de que o teatro pode mesmo libertar os oprimidos. Isso levanta a nossa moral. Tem muita gente que discrimina: se mora na favela, é favelado e, portanto, marginal. Mas aqui também há pessoas com talento", reclama Pedro, 18 anos, um segurança que se descobriu o ás da improvisação quando deixa a cochia do cotidiano para se proteger sob a luz dos holofotes. Haja tapas na cara, beijos na boca e muito verbo para as ininterruptas tardes de ensaios que, em geral, acontecem nos fundos de uma igreja ou escola. Os adolescentes, entre 12 e 18 anos, são maioria nos grupos que, apesar de veteranos, mantêm suas raízes e seu público entranhados no interior dessas favelas. Lá, todos têm vez nas peças que encontram nas montagens alternativas a fórmula que agrada-- o figurino com roupas de segunda e de primeire e os personagens que saltam do morro para o palco não são mera coincidência. Os grupos "Nós do Morro", do Vidigal, e "Do jeito que tá", da Rocinha, estão à espera de uma proposta decente de patrocínio. As duas companhias preparam espetáculos para transformá-los em "projeto-escola" e tornar pública e útil a arte produzida na favela. "A gente vê o Estado despejando dinheiro em inúmeros projetos culturais, muitas vezes caros demais, e a gente que tem uma estrutura relativamente barata nunca consegue verba. Por aqui passaram adolescentes talentosíssimos que acabaram abandonando a carreira teatral para ganhar dinheiro como boys, trabalhadores da construção civil ou mesmo através do subemprego. Por que não criamos chances novas para eles?", indaga Guti Fraga, diretor do "Nós do Morro". O mesmo problema é enfrentado pelo diretor do grupo "Do jeito que tá", George Mello, que por enquanto fica à mercê de um mecenas bissexto que aparece vez por outra para agendar um espetáculo e garantir um figurino mais sofisticado em casas especializadas. Foi assim que o grupo conseguiu montar a Via Sacra no fim do ano passado e apresentá-la lá mesmo na Rocinha (O Globo).