COPA DO MUNDO: BRASIL É TETRACAMPEÃO

O Brasil tornou-se ontem tetracampeão mundial de futebol, no estádio Rose Bowl, em Los Angeles (EUA), espantando o fantasma que mais assustou o futebol brasileiro nos últimos anos: o pênalti. Depois de dominar a Itália no tempo regulamentar e na prorrogação, desperdiçando excelentes chances de gol, acabou vitorioso por 3 a 2 justamente quando o astro Roberto Baggio, que salvou a Itália várias vezes durante a Copa, mandou para as nuvens o pênalti que manteria as esperanças de sua seleção. Foi a primeira vez que a Copa do Mundo foi decidida nos pênaltis. Pelo Brasil, marcaram, pela ordem, Romário, Branco e Dunga. Márcio Santos perdeu o primeiro. Pela Itália, marcaram Albertini e Evani. Baresi e Baggio chutaram fora e Taffarel defendeu a cobrança de Massaro. A vitória desencadeou um carnaval de Norte a Sul do país, levando multidões para as ruas e praças de todas as capitais. Vinte e quatro anos depois da última conquista, na Copa do México, em 1970, sobre a mesma Itália, a Seleção Brasileira recuperou a liderança do futebol mundial, construída a partir do bicampeonato de 1958 e 1962. Já classificada para o Mundial de 1998, na França, a Seleção venceu a 15a. Copa do Mundo invicta, com quatro de seus jogadores na Seleção da FIFA: Jorginho, Márcio Santos, Dunga e Romário. O tetracampeonato chegou com cinco vitórias (2 a 0 na Rússia; 3 a 1 em Camarões; 1 a 0 na Suécia) e dois empates (1 a 1 com a Suécia e 0 a 0 com a Itália, no jogo corrido). No campo, abraçados e festejados pelos mais de 100 mil torcedores que lotaram o estádio Rose Bowl, os jogadores comemoraram intensamente o título, numa festa que teve seu momento mais emocionante quando Dunga, o capitão da equipe, recebeu a "Fifa World Cup", a Taça da FIFA, uma escultura de cinco quilos, em ouro de 18 quilates. Beijada pelo capitão, a taça passou de mão em mão. Os jogadores dedicaram o tetra ao tricampeão mundial de Fórmula 1, Ayrton Senna, morto num acidente do GP de Imola, na Itália, em maio. Zagalo tornou-se o único desportista tetracampeão do mundo, duas vezes como jogador, uma como técnico e esta como coordenador técnico. Os italianos, no vestiário, choraram a derrota. É uma maldição, disse o goleiro Pagliuca. Durante o jogo ele chegou a beijar a trave, que o livrou de um "frango" histórico, num chute de Mauro Silva. A volta dos tetracampeões mundiais está prevista para amanhã. A delegação desembarca, primeiro, em Recife (PE), onde vai agradecer o apoio dos pernambucanos na fase eliminatória. Depois vai a Brasília (DF), onde será recebida pelo presidente Itamar Franco, que enviou telegrama ao técnico Carlos Alberto Parreira e assinou decreto estabelecendo ponto facultativo nas repartições federais hoje, até meio-dia. No Rio de Janeiro (RJ), a delegação desfilará em carro aberto do Aeroporto Internacional até a Avenida Delfim Moreira, no Leblon (zona sul). O presidente Itamar Franco disse que a vitória do Brasil foi uma lição de otimismo. "Através da busca do bem-estar do povo e não de pregação da desolação é que nós vamos fazer do Brasil o grande país do século 21", afirmou. Parreira, o técnico do tetra, deixa a Seleção com um balanço positivo depois do 0 a 0 de ontem: em 47 jogos, foram 28 vitórias, 14 empates e apenas cinco derrotas. O Brasil marcou 98 gols e levou 34. Ontem, os italianos só foram barulhentos e alegres antes da partida. Só fizeram ouvir as milhares de buzinas de barco que compraram nos últimos 30 dias (a "novidade" que fez a fortuna dos camelôs), para celebrar a conquista do tetracampeonato, em dois ou três momentos da disputa final: quando Pagliuca beijou a trave que o salvou de um "frango", quando Romário não transformou em gol o centro de Cafú e quando Pagliuca defendeu o pênalti chutado por Márcio Santos. Depois do pênalti mandado às nuvens por Roberto Baggio, não se ouviu mais nada. Em todas as cidades, os telões e os televisores das casas, bares, praças e estádios foram apagados quase imediatamente. Ninguém teve ânimo para comparecer às muitas festas e comemorações programadas e organizadas com tanta antecedência, nas grandes e pequenas cidades do país. O trânsito nunca foi tão ordenado e silencioso. Em toda a América Latina, a vitória do Brasil foi comemorada como se fosse uma conquista do continente. Venezuelanos, paraguios, uruguaios, equatorianos e chilenos, entre outros povos, saíram às ruas das grandes cidades para festejar o tetra obtido pela Seleção Brasileira. A exceção ficou por conta da Argentina, eliminada da competição nas oitavas de final. Os moradores de Assunção, capital paraguaia, fizeram buzinaços e soltaram fogos para comemorar a volta do título mundial à América do Sul. Milhares de equatorianos saíram às ruas da capital Quito, onde os canais de televisão e as rádios difundiram música brasileira após o jogo. Nas capitais do Peru e do Uruguai hoje carreatas e muitos fogos de artifícios em homenagem à conquista do tetra. Em Caracas, na Venezuela, a festa irmanou brasileiros e italianos, que fizeram um verdadeiro carnaval. O número de torcedores da Copa dos EUA foi cerca de 40% maior do que o registrado no Mundial da Itália, em 1990. Segundo o Comitê Organizador da competição. 3.567.415 pessoas pagaram ingressos para assistir aos 52 jogos do torneio, disputado em nove sedes. Este número representa mais de um milhão de torcedores em comparação com a Itália, que teve um público total de 2.517.348 pessoas. A classificação final da Copa do Mundo dos EUA é a seguinte: 1o.) Brasil, 2o.) Itália, 3o.) Suécia, 4o.) Bulgária, 5o.) Alemanha, 6o.) Romênia, 7o.) Holanda, 8o.) Espanha, 9o.) Nigéria, 10o.) Argentina, 11o.) Bélgica, 12o.) Arábia Saudita, 13o.) México, 14o.) EUA, 15o.) Suíça, 16o.) Irlanda, 17o.) Noruega, 18o.) Rússia, 19o.) Colômbia, 20o.) Coréia do Sul, 21o.) Bolívia, 22o.) Camarões, 23o.) Marrocos e 24o.) Grécia. Houve 141 gols nos 52 jogos da 15a. Copa do Mundo. A média chegou a 2,7, a maior desde 1982 (JB) (O ESP) (O Globo) (FSP).