O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, nao gosta de discutir os números da miséria no Brasil. O importante para ele é resolver o problerna "Se alguém tiver um número melhor, que apresente", propoe. Betinho compara o Brasil com o Titanic a caminho do desastre e confessa que se irrita quanto questionam se os miseráveis no Brasil sao 32 milhoes ou 15 milhoes: "Quem levanta essa questao está querendo jogar areia na mobilizacao popular." Em entrevista ao repórter Ricardo Lessa, o coordenador da Acao pela Cidadania contra a Fome e a Miséria diz que nao gostaria de ver o que vai acontecer no Brasil nos próximos 20 anos se os problemas sociais nao forem enfrentados. Estado--Os números da fome no Brasil estao sendo contestados por vários cientistas políticos. O que voeê diz disso? Betinho--As estatísticas sociais no Brasil sao muito precárias. Muitas delas sao produzidas pelas universidades, pelas pesquisas de mestrado e doutorado, que sao necessariarnente localizadas, e pelas ONGs. Veja que foram os sindicatos é que produziram o Dieese para obter números confiáveis de emprego e salário. Uma vez tentamos saber quantos cegos existem no país. A cegueira é uma doenca facilmente constatável. Podia até ser registrada no censo, mas ficamos sem resposta. Aplica-se no Brasil uma taxa internacional, em relacao à populacao. E esse é o número disponível. Falhas como essas sao imensas. Soma-se a isso a degradacao do IBGE, que praticamente foi demontado no governo Collor. A estatística brasileira está entregue a sua propria sorte. Estado--Entao esse número que você usa é mesmo duvidoso? Betinho--É um número do Ipea, que usou um critério internacional. Calculou o valor de um cesta básica no Brasil. Todas as famílias que ganham apenas o suficiente para adquirir os alimentos da cesta ou menos, sao consideradas indigentes, já que uma família tem outras necessidades e nao vai gastar dinheiro apenas com a cesta básica Se ela nao tem condicao de comprar a cesta básica está abaixo da linha de indigencia: 9 milhoes de familias brasileiras estao nessa situacao. Estado--Mas as familias tem formas indiretas e nao declaradas de renda. Betinho--Confesso que essa discussao de números me provoca uma grande irritacao. Quem tiver um número melhor que apresente. Se for entre 15 e 30 milhoes isso nao tem muita diferenca para mim. Se for 16, isso é 10% da populacao na indigencia. Dá no mesmo, para efeitos de mobilizacao e acao política. Nao estou competindo pela miséria. Havia muita polêmica sobre o número de criancas de rua no Brasil, nós do Ibase é que fomos lá contar uma por uma, e chegamos a 629 criancas. Um número menor do que o esperado, que causou também muita polemica. Hoje deve haver 800 criancas. Estado--A argumentacao é de que os 32 milhoes se referem a pobreza, medida pela renda, e nao à fome, medida por estudos nutricionais. É isso? Betinho--Estamos falando da fome-miséria. Nao somos nutricionistas. Os caras do lixao, comem lixo. Vivem lá, mas sao miseráveis. Claro que os trabalhadores que ganham um salário mínimo comem alguma coisa, nao morrem de fome, mas passam fome. Esses números mostram o nível de dificuldade e o esforco que a pessoa precisa fazer pala viver no Brasil de hoje. Estado--Mas no Nordeste tem é fome mesmo. Nao é importante distinguir fome de miséria? Betinho--O Nordeste e o caso extremo, falta água, os animais morrem, as plantas secam. É o que os americanos chamam de "starvation". Nao temos 32 milhoes de pessoas nessa situacao no Brasil. Uso esse dado para identificar um quadro de miséria. Basta olhar os exemplos próximos, basta ver as marmitas dos trabalhadores. Quando eu era maoísta, na década de 70, trabalhava numa fábrica de porcelana, e levava marmita. A comida do pessoal era bem melhor do que hoje. Hoje é arroz, xuxu, tomate e ovo. Carne, aqui, virou "mistura". É um pedacinho de linguica ou de salame, que o pessoal vai comendo aos pouquinhos. Esse cara nao está morrendo de fome, mas está passando fome. Esse é o operario, o produtor, que deveria estar comendo no minimo uma refeicao balanceada. Estado--A situacao da crianca também é crítica, nao e? Betinho--Algumas pesquisas já mostraram que a merenda escolar se transformou numa peca de sustento das criancas. Uma pequena mostra indica que a crianca come é na escola. A merenda que deveria suprir apenas 15% das necessidades nutricionais de uma crianca do Primeiro Mundo, hoje é responsável por 100% das necessidades das criancas brasileiras. Recentemente o governo federal aprovou a extensao da merenda a todos os dias do ano, inclusive nas férias, para que as criancas nao passem fome. Estado - Nao é importante medir isso? Betinho - Os dados do Ipea mostram que mesmo com os 32 milhoes de indigentes, se cada município cuidadesse dos seus, se resolverá o problema. O que falta é vontade política. O debate dos números é um debate frio. Aí existe uma lógica que eu rejeito. Nao entro nessa discussao, a nao ser que se estabeleca que a discussao é sobre estatistica limitada. Se nao, concluo que o sujeito está querendo jogar areia na luta social contra a miséria. Nao adianta tornar o problema grande ou pequeno, o importante é resolve-lo. Engracado é que tem um pessoa que fica nessa discussao de barriga cheia. Se estivesse com barriga vazia queria ver entrar nessa discussao de numeros com acuidade. Estado - Sem medida, é impossivel planejar uma acao objetiva... Betinho - O nivel de miseria é assustador. E existe recurso suficiente na sociedade brasileira para resolver o problema. Mas a sociedade nao tem como objetivo erradicar a miseria. Todos esses miserais tem pais e maes na política. A miseria é um subproduto da acao política e econômica da elite brasileira. Se uma pessoa entra no estado de indigencia e nao tem como subir de novo está definido como um pária social. Isso é terrivel. Estado - Essa é uma situacao que vai perdurar em 95? Betinho - Este país é um Titanic a caminho de um iceberg. Pode desviar da rota ou nao. O que está acontecendo é um deslizamento social rumo ao empobrecimento. Nao vai acontecer o caos. Se houvesse o caos, era necessario parar para rever tudo, mas nao sou catastrofista. O que está acontecendo é que os pobres estao ficando mais pobres, os miseráveis mais miseráveis e os indigentes, famintos. Nas grandes cidades isso é visivel. Nós sentimos isso com a aproximacao da violencia. Muita gente só se surpreende quando o pobre ataca. Devia se surpreender quando o rico ataca. Mas todo mundo acha natural que entre os 400 mais ricos do mundo, seis sejam brasileiros. Um deles, Antonio Ermirio de Morais, é dono de 60% do mercado de cimento nacional. Um monopolio, que estabelece os precos do cimento no país. Quando vejo um carro importado sinto medo. Através de cada um deles tem mais miseraveis do que antes. Nao sou contra a riqueza, sou contra a desigualdade (O ESP).