A recente troca de farpas entre o presidente Itamar Franco e o presidente da Argentina, Carlos Menem, sobre o salário-mínimo brasileiro, expõe parte das dificuldades de negociação entre os dois maiores sócios do MERCOSUL e mostra o temperamento dos dois presidentes. Desde os atritos provocados pela construção da hidrelétrica de Itaipu, há duas décadas, autoridades dos dois países vivem uma relação de avanços e recuos. A Argentina é o segundo maior importador de produtos brasileiros e 20% das suas exportações vem para o Brasil. "É como briga de irmãos", compara um diplomata brasileiro que serviu em Buenos Aires. "Não é para valer". Os desentendimentos se intensificaram a partir da criação do MERCOSUL. A política econômica argentina congelou o câmbio e o país começou a acumular seguidos déficits comerciais. Por serem mais baratos, os produtos brasileiros invadiram a Argentina. Nos últimos 12 meses, o ministro da Economia, Domingos Cavallo, criticou pelo menos duas vezes-- publicamente-- a política econômica brasileira. Segundo ele, os baixos salários pagos aos trabalhadores e o preço baixo de insumos como a energia elétrica, favoreciam os produtos brasileiros. "Com o Plano Real a tendência é a política econômica dos dois países se estabilizar", prevê o professor do Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Alcides Vaz. Outro problema é a política de governo. A política externa argentina segue o que os estudiosos chamam de "realismo periférico"-- isto é, o esforço de um país latino-americano para se alinhar com o centro político e econômico que é os EUA. A Argentina fez quase tudo de acordo com o modelo defendido pelos EUA. Na economia, privatizou as empresas estatais, abriu o mercado para os produtos estrangeiros e colocou em prática o neoliberalismo. Na política externa, a Argentina foi o único país latino-americano a mandar um navio e tropas para o Golfo Pérsico durante a guerra dos EUA com o Iraque, em 1991. Repetindo o discurso norte-americano, Menem não poupa de críticas o regime cubano de Fidel Castro. Para alguns diplomatas brasileiros, o alinhamento político argentino com os EUA é mais forte que o do México. "A Argentina, como o Chile, esperam obter vantagens no futuro nas negociações com os EUA", destaca Vaz. Até agora, os EUA não recompensaram a Argentina. Segundo fontes diplomáticas, a Ingratidão" norte-americana fez a Argentina se voltar para a união regional-- caminho seguido pelo Chile, que chegou a desprezar o MERCOSUL. "O alinhamento argentino com os EUA nunca excluiu o MERCOSUL", argumenta Vaz. Para ele, é justamente esta dualidade que complica a Argentina. "Ela fica entre a negociação de curto prazo, que é o MERCOSUL, com uma negociação de médio e longo prazo, que um possível acordo com o NAFTA". O Brasil, ao contrário, preferiu seguir outro caminho. O governo quer primeiro fazer o MERCOSUL e depois negociar com o NAFTA e os demais blocos econômicos (O ESP).